As narrativas que habitamos

Todas as histórias têm um início, meio e fim, mas parece que algumas não conseguem terminar. É o caso de Harry Potter, que continua a ser falado e desenvolvido mesmo quando os seus livros já terminaram. Qual é o problema das histórias que não terminam? Será que há personagens que não conseguem descobrir o seu fim?

Nem todas as histórias querem, ou conseguem, chegar ao fim. E isso diz mais sobre nós, leitores e sociedade, do que propriamente sobre os livros, as personagens ou os seus autores. Esses heróis, que habitam as páginas e depois as telas, preenchem o nosso imaginário e dão resposta, muitas vezes, aos desafios e aventuras que desejaríamos viver.

Por motivos distintos, identificamo-nos com gestos, atitudes e palavras. Choramos, rimos, sonhamos e apaixonamo-nos. Quando uma personagem é criada com profundidade, ou quando uma história toca em temas universais, como a amizade, a perda, a coragem, a identidade ou o destino, transforma-se em algo vivo, que cresce para além da sua criação literária. Passamos a viver as emoções de modo empático e a habituar-nos à sua presença, como a de um velho amigo. É essa familiaridade que as torna reais.

Uma personagem sobrevive pelo impacto que deixa no leitor. Pelo que a move, pelas suas contradições, fraquezas e lutas internas. Pela jornada de transformação que percorre entre o início e o fim da história. Por uma marca invulgar, uma cicatriz, um objeto, um olhar, e pela capacidade de fascinar. É esse conjunto de elementos que a torna imortal.

Algumas narrativas tocam algo tão íntimo e essencial em nós, que passam a fazer parte da estrutura com que tentamos compreender o mundo. Determinadas personagens tornam-se arquétipos, espelhos, conselheiros, ou até confidentes invisíveis. Com elas falamos, discutimos e partilhamos muito daquilo que o nosso íntimo camufla. Com elas não precisamos de fingir. Entendem os nossos comportamentos, extravagâncias, receios, ânsias e desatinos.

Também há casos em que as personagens transcendem o próprio criador e o chegam a confundir. Veja-se o exemplo de Flaubert quanto à sua obra Madame Boavry sobre a qual lhe é atribuída a frase “Madame Bovary foi mais famosa do que eu jamais serei”, ou “Madame Bovary c’est moi”. Estas afirmações refletem de forma eloquente o impacto duradouro de Emma Bovary na literatura e na cultura. Reforça como uma personagem fictícia pode alcançar uma existência quase independente, influenciando gerações de leitores e de escritores.​

Há personagens que nunca descobrem o próprio fim, porque o público não as deixa partir. Haverá sempre mais uma pergunta sem resposta, um detalhe por decifrar, um espaço discreto onde poderia caber outra história. E, no fundo, manter essas histórias vivas é também uma forma de manter vivas as versões de nós mesmos que existiram quando as lemos pela primeira vez. Quem éramos quando descobrimos Hogwarts? Quem éramos ao enfrentar a primeira grande perda ao lado de Harry? E quem somos agora, ao revisitá-los?

As histórias que não conseguem terminar são aquelas que se transformaram em verdadeiras lendas. Funcionam também como lembretes daquilo que é essencialmente humano, feito de inícios, de longos meios e de fins adiados.

 A verdadeira questão, então, não é se essas histórias têm ou não um fim narrativo, mas se nós, enquanto leitores, conseguimos aceitar o fim de algo que nos marcou tanto. E, na maioria das vezes, não conseguimos. Porque, no fundo, essas histórias são também sobre nós.

Tal como Harry Potter, muitas outras permanecerão como never ending stories, sempre recordadas. Que o digam Sherlock Holmes, Romeu e Julieta, Indiana Jones, Robin dos Bosques e tantos outros que, mesmo longe das páginas continuam a habitar o nosso imaginário.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

Exit mobile version