Adoro animais, todos e de todas as espécies (insectos, depende), mas com a natural preferência pelos nossos mais ancestrais amigos, os cães, que tive durante toda a vida.
Contudo, não tenho nada contra gatos, periquitos, elefantes ou cavalos, gosto mesmo muito de todos e admiro-os como poucos, porque respeito muito os seus caminhos evolucionários, que lhes permitem viver as suas vidas tranquilas e equilibradas, com a sua inteligência e as suas emoções (temos tanto para descobrir sobre isto), em total comunhão com a natureza, sem estragar, sem mudar nada que não seja natural mudar.
Os cães são aquela relação especial mais comum, afinal foram o primeiro animal a viver de forma simbiótica com os humanos, estima-se que há muitos milhares de anos, ainda antes de serem totalmente domesticados, há cerca de 30.000 anos.
Seja como for, cães, gatos ou jacarés, há várias coisas que lhes fazemos a que chamo maldades por amor. São bem-intencionadas, mas, quanto a mim, partem da típica arrogância da nossa espécie em ‘adaptar’ a natureza ao nosso conforto.
E assim, começámos por criar raças. Forçar cruzamentos entre animais de naturezas diferentes e depois pô-los insistentemente, durante décadas, a cruzarem-se com os seus progenitores ou descendentes, de forma a surgirem a multitude de ‘raças’ a que chamamos de ‘puras’ e pelas quais estamos dispostos a pagar bom dinheiro. Muitas elas com problemas crónicos congénitos que lhes provocam uma vida de sofrimento, como é o caso dos Buldogues e em particular os Buldogues Franceses, que vivem com dificuldades respiratórias permanentes.
Depois interferimos no seu balanço químico natural. Damos-lhes banhos frequentes como se fosse a coisa mais natural do mundo para eles, porque cheiram muito a cão, ou muito a gato. Coitados, se cheirassem a Porquinho da Índia, isso sim, seria estranho. E os banhos além de frequentes, são sempre acompanhados de produtos químicos, o maravilhoso champô disto e o amaciador daquilo, que compramos por bom dinheiro, porque ‘é o melhor’ para as suas peles, esquecendo que estas foram preparadas, durante milhões de anos, para não precisar de nada disso, para terem uma higiene melhor que a nossa, e que assim só estamos a mexer no equilíbrio biológico que a pobre e esforçada natureza apurou durante tanto tempo.
E continuamos, ficando profundamente chateados quando ‘se portam mal’, ou fazem xixis e cocós em casa, depois de 8 horas fechados num apartamento minúsculo, tendo naturais ataques de ansiedade que os levam a roer ou arranhar tudo o que lhes apareça pela frente – “Mas isso é o teu, porque é mal educado, que o meu fez isso uma vez e levou tantas, que nunca mais.”
E terminamos sem qualquer complacência, determinando que a primeira coisa que lhes deve ser negada, é precisamente a primeira coisa que a longa evolução permitiu: A capacidade de procriar.
Agora, imaginem, quando não os amamos.
