Alguém dizia que a amizade entre homem e mulher só era possível se não houvesse entre ambos a mínima atração amorosa ou sexual.
Não sei se, a existir tal, se torna impossível, mas sem dúvida que desajuda muito. Pelo menos no que toca a manter o teor de pureza da amizade.
Não sou muito dada a conversas de diferenciação pelo sexo. Pessoas são pessoas, salvaguardadas as diferenças. Em termos de amizade, essa questão dissolve-se ainda mais. Um amigo é um amigo, seja homem ou mulher, todos diferentes e todos iguais, que as pessoas transcendem as classificações simplistas e agregadoras. Já no caso amoroso, para mim, faz toda a diferença, mas tão só por uma razão: não tenho vocação para gostar de mulheres. Um detalhe. Esquisitices. Mas adiante.
Todos os nossos amigos são diferentes. A razão por que somos amigos, ou aquilo que gostamos em cada um deles, é diverso. Podemos gostar de A pelo seu bom humor, de B pela sua forma de pensar, de C porque é uma pessoa caricata, etc. Há até quem defenda que deveremos ter amizades a diversos níveis e com quem partilhar interesses distintos. Complementaridade. No entanto, parece-me que não escolhemos os amigos de forma racional. Simplesmente acontece.
Mas hoje não falo sobre os amigos em geral, com quem partilhamos convívios e conversas ligeiras, nem sequer sobre aqueles que mantemos há décadas e conhecem a nossa história sem que os tenhamos de enquadrar. Falo daqueles dois ou três com quem falamos do mais íntimo de nós. Os nossos conselheiros ou como se usa agora dizer, os nossos coaches nas decisões difíceis ou nos desabafos irracionais.
E aqui, e apenas aqui, surge-me, contra toda a lógica, uma óbvia diferenciação entre as amizades íntimas masculinas e femininas. E porquê?
As amigas duma mulher são por norma tão complexas e amplificadoras de ses como a própria. Se falamos com uma sobre um assunto grave que nos assiste, o mais provável é ficarmos ainda mais confusas, porque a nossa querida amiga, com toda a vontade resolutiva do nosso conflito interior, apresenta-nos perspectivas que não ousámos, qual pentadecágono. Temos uma visão ampla e abrangente, e somos as rainhas das bifurcações insolúveis. E fazemos do drama motivo para uma declaração de amor e apoio, abraçamo-nos e beijamo-nos, prevalecendo a forma sobre o conteúdo, e concluímos num democrático espero ter-te ajudado, e apoiar-te-ei qualquer que seja a tua decisão, que eu também não consigo decidir.
Já os amigos-homens íntimos duma mulher, aqueles que, apesar de não serem feios, optamos por não ver dessa forma, são os reis do pragmatismo. Causam-nos até uma leve irritação pela forma, quase infantil, a que reduzem os nossos gigantescos dramas a duas frases. Aquilo mexe connosco, como é possível, então não vês que, e por outro lado tal?! E eles olham-nos como se sofrêssemos de divagação mental e forçosamente nos afastássemos do foco: é assim e assim. Pronto. Confesso-vos uma coisa: a simplificação soa-me inicialmente a perda e à basilar e unicelular ameba. No entanto, reconheço, que a sua análise racional ajuda muito mais nas decisões difíceis, porque se centra no essencial. E claro, é mais fácil optar entre 3 hipóteses do que entre 10.
E quando precisamos ouvir um ralhete? Imaginem a situação de termos soltado os cachorros sobre alguém que nos magoou. Ou que tenhamos desconsiderado alguém, ignorando-o, por algo que fez ou que não fez.
As amigas, que nos querem desenvolvidas e evoluídas e justas, apelam à não radicalização, quase, quase, como as misses universo, a paz do mundo e tal e coiso. Porque somos capazes de melhor e poderíamos ter-nos portado de forma mais correcta. E agora pensa em ti e cuida-te, é o que tens a fazer, o foco és tu.
Os amigos homens talvez não nos deem tantos beijos e abraços, nem sequer nos façam uma festa no cabelo naqueles dias em que voltámos à adolescência e temos o mundo contra nós, mas são muito mais resolutivos. Numa única frase, conseguem mostrar-nos o seu afecto inquestionável sem prescindir da testosterona, e ainda nos põem a sorrir: quem é esse/a idiota?
Assim, o melhor é ter uma amiga e um amigo por perto.
Ela pode ser bonita, ele nem tanto. Facilita muito.
