After Life / Depois da vida

Esta série foi-me apresentada por uma amiga. Há sempre um grupinho que se vai formando no que toca a opiniões sobre as séries, e vamos assentando referências num gosto que muitas vezes é similar. Quando visto a par e passo, é mote para reflexão e confirmação de entendimentos, tantas vezes em segunda e pouco óbvia linha.

E assim deparei-me com After Life. Um homem, inglês, jornalista, profundamente amargurado com a morte da mulher, que faleceu de cancro, que todos os dias e sobretudo todas as noites, visualiza vídeos em que a mesma aparece, em tempos de saúde e depois de doença, é a ideia central desta série. O comportamento autodestrutivo, sendo também extremamente agressivo e crítico com os que o cercam, bem como a ideia do suicídio, torna-o num ser intratável, zangado com o mundo, revoltado.

À volta dele, a cadela que o mantem vivo, a redação de um jornal de terra pequena, onde trabalha, colegas solitários, um cunhado que é o chefe do jornal e sua família, um lar de idosos onde tem o pai mentalmente ausente e uma amiga, um carteiro ex-sem-abrigo, uma prostituta, um divorciado traumatizado e desbocado, a família dum colega que inclui um rapaz, aparentemente autista, dado às artes, um excêntrico captador de talentos, uma senhora que visita diariamente a campa do marido, e tantos outros. Através da sua profissão, contacta também com personalidades caricatas consideradas, muito a ferros, dignas de artigos no jornal.

Posto isto, parecem reunidas as condições para uma série negra, depressiva, triste e irremediavelmente sofredora. Pois não é. Basta um episódio para se perceber que o humor é negro, sim, mas também, muitas vezes, boçal, brejeiro ou mesmo rude. Cruzam-se nesta série reflexões muito intensas sobre a vida, sobre o sentido de viver, sobretudo quando o amor partiu irremediavelmente, mas também há um humor mordaz, subentendido às partes, outras vezes expresso, aos costumes duma povoação tipicamente britânica, aos relacionamentos e aos preconceitos sociais.

Poderia contar-vos mais, mas não seria justo deixar-vos sem a oportunidade de descobrirem por vós próprios estes personagens que, num mesmo episódio, me puseram a chorar, umas vezes de riso, outras por comoção. Além de protagonista, Ricky Gervais é também o autor desta série (criou, escreveu, produziu e realizou), o que me parece um excelente teaser. Decidam, então, em conformidade.

Deixo-vos, no entanto, com um pensamento que me ficou. Tony vê em Lisa, a sua mulher falecida, a perfeição. Não nos é apresentado, ao longo dos inúmeros vídeos que nos apresenta, qualquer réstia de conflito, zanga, desagrado. Lisa apresenta-se sempre sorridente, gargalhando, divertindo-se com as provocações de Tony. Mesmo doente, de lenço amarrado na cabeça, numa cama de hospital, Lisa tem sempre uma postura resiliente e deixa-lhe o recado de que o quer feliz após a sua partida. Lisa quer que ele continue a viver e que se permita voltar a ser feliz. Be happy, be kind, be Tony.

Posso dizer que não é voto que Tony tenha aceite de imediato, não se sentindo com razões para viver, muito menos ser feliz. Presume-se, pelo seu comportamento, que não se sente no direito de o ser, após a partida do amor da sua vida, ainda que ela lho tenha pedido. Essa negação surge a todos os níveis, no dia a dia com os colegas e os amigos, mas aparece de forma mais expressa e assertiva quando surge Emma, a enfermeira do lar onde se encontra o pai, criando-lhe alguns desconfortos ao nível amoroso.

Tony tem sentimentos por ela, mas não ao ponto de conseguir vencer a barreira que se autoimpôs. Não deixa de se sentir ciumento da atenção que outros homens lhe devotam, mas ainda assim não se solta ao ponto de deixar avançar o sentimento. Ao fim de algum tempo de muito tolerante expectativa, Emma segue outro caminho. Como ela desabafa com terceiros: Tony está ainda apaixonado pela falecida mulher.

E isto levou-me a pensar que só há dois tipos de amor que não sofrerão nunca a erosão do tempo ou da rotina dos dias: os que nunca aconteceram, e se mantêm no nível da perfeição idealizada, e os que terminaram pela partida definitiva de alguém, e assim ficaram imortalizados, congelados no tempo.

Ao longo das 3 temporadas, Tony sofre uma intensa modificação de si mesmo. Consegue condoer-se, comover-se, preocupar-se com os outros. Pouco a pouco, vai encontrando razões de felicidade, muitas vezes na capacidade que vai demonstrando de ajudar terceiros nas suas questões mais pessoais. A amargura vai sendo substituída pela empatia, e há claramente uma deslocação do registo para a normalidade.

Tony reabre-se ao mundo. Excepto no amor. Quando se teve um grande amor, talvez a memória seja o bastante e já não haja a necessidade de o buscar. Talvez aconteça, mais tarde, eventualmente, mas não se procura.

Isto lembrou-me o meu avô, que ficou viúvo aos 78 anos. Recordo-me que um amigo dele lhe sugeriu que voltasse a casar, que não devia ficar só. Respondeu-lhe que não queria, que já tinha vivido o amor da vida dele.

Benditos o que conheceram o Amor, o tal que dispensa continuidades.

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