Em 2017, o Ministério de Saúde do Peru, informou a través de um relatório de uma misteriosa epidemia que afetava à tribo nahua desde 2014. Os nahuas, são uma tribo indígena da Amazônia peruana que manteve-se isolada até aproximadamente os anos 80, época na qual começaram a abrir a sua sociedade para o mundo exterior.
Esta apertura social, teve o seu custo, metade da sua população faleceu devido a doenças infecciosas como por exemplo, a tuberculose, no entanto, estas doenças não são a misteriosa epidemia que foi descrita pelo governo peruano. Em 2014, um bebê nahua e a sua mãe foram internados no hospital mais próximo com pneumonia e anemia severa. Várias análises foram realizadas para identificar a origem do problema, e o resultado foi positivo para a intoxicação por mercúrio. Por conta disto, decidiu-se analisar amostras de cerca de 41% da população nahua (150 indivíduos) e em 78% delas, se detectaram altos níveis de mercúrio no sangue.
A Organização Mundial da Saúde, diz que o mercúrio é um dos dez produtos químicos de maior preocupação por ameaçar o desenvolvimento das crianças no útero materno e por gerar câncer e outros problemas no resto da população. Acredita-se que este metal pesado, tenha sido ingerido pelo povo nahua ao consumir peixe que tinha sido contaminado devido à atividade de industrias na área que se dedicavam à extração de gás.
Em 2020, a pandemia ocasionada pelo vírus SARS-COV-2, abalou o cenário mundial e também às populações indígenas. A pandemia representou um risco para todos no mundo, mas como sempre, aqueles mais vulneráveis e desfavorecidos são os que sofrem as piores consequências. As populações indígenas, por viver isoladas, nunca tiveram contato com as diferentes doenças infecciosas e na maioria das vezes nunca foram vacinadas contra nenhuma delas. Por isso, o sistema imunológico dos indivíduos destas comunidades não está preparado para combater estas infecções e têm maior risco de as sofrer na maioria das vezes, sob as formas mais severas. Também, são populações com pouco acesso aos sistemas de saúde, com dificuldade em conseguir recursos importantes para combater a pandemia como máscaras, sabonetes, respiradores artificiais, vacinas e até mesmo informação e educação. Basta juntar a falta destes recursos, com o sistema imunológico destas comunidades e com o fato de que muitas tribos indígenas estão já em risco de extinção, para perceber a gravidade do problema para estes povos.
Com certeza o impacto da pandemia nos povos indígenas do mundo é diverso, e por isso é preciso analisar e entender as particularidades de cada povo para tomar ações que reduzam o impacto desta doença nestas populações. Contudo, muitas vezes foram os próprios povos indígenas que decidiram aplicar por conta própria medidas de prevenção para garantir a saúde dos seus membros. Vários povos decidiram fechar as fronteiras dos seus territórios, estabeleceram filtros sanitários e quarentenas, cancelaram eventos, cerimônias e festas e algumas estabeleceram a obrigatoriedade no uso de máscaras quando foi possível o acesso a elas.
Graças ao rápido desenvolvimento das vacinas, atualmente, a pandemia já não é o que foi em 2020. Contudo, até hoje, a maioria das comunidades indígenas continuam sem acesso a estas vacinas. Na maioria dos casos, a falta de acesso às vacinas se relaciona com falta de estrutura e falta de comunicação. Por exemplo, no México, a vacinação requeria de um registro virtual, deixando de fora a todos os indígenas que não possuíam dispositivos eletrônicos, internet e até mesmo eletricidade. Do outro lado, na Australia, os povos indígenas foram considerados grupos prioritários no plano de vacinação, o governo australiano teve em conta o estado imunológico destas comunidades e por isso foram vacinados junto com outros grupos de risco. Também deve ser dito que por parte dos povos indígenas há uma enorme variedade de crenças e experiencias com relação às vacinas e há povos que as aceitaram enquanto outros as rejeitaram. Pode ser que essa rejeição tenha acontecido bem seja por falta de campanhas que realmente fossem direcionadas para estes povos ou por crenças que são antigas e culturais e que dificilmente seriam mudadas.
Outro episódio além da pandemia que voltou a abalar o mundo mais recentemente, é a invasão russa na Ucrânia. Mesmo que este conflito armado aconteça geograficamente longe da maioria dos povos indígenas, vivemos num mundo conectado e alguns dos impactos já foram sentidos por eles. Por exemplo, no continente africano, onde o número de comunidades indígenas é grande, muitos produtos agrícolas como trigo, milho e óleo de girassol são importados principalmente da Rússia e da Ucrânia. A interrupção do comercio por causa da invasão, o boicote aos produtos russos e os elevados preços a nível mundial, são um grande risco para a segurança alimentar de alguns países africanos que já normalmente apresentam problemas de fome nas suas populações.
Outro exemplo das consequências da guerra na Ucrânia, acontece no Brasil. O Brasil é o principal produtor de alimentos no mundo e importa cerca de 55 milhões de toneladas de fertilizantes, a maioria procedente da Rússia. Com as sanções e os problemas logísticos, o governo brasileiro teme que o fertilizante não seja suficiente para todos os cultivos do país. Por isso, para resolver a situação, tentou aprovar uma lei para permitir a explotação mineira em territórios indígenas e assim conseguir potássio para os cultivos. A lei ainda não foi aprovada, mas a incerteza que gera desde faz meses a guerra na Ucrânia, poderia ser a escusa perfeita para que esta lei seja aprovada brevemente. Os indígenas da Amazônia brasileira temem que com a aprovação da lei, se abra a porta para todo tipo de explotação mineral e não só de minerais utilizados para a produção de fertilizantes.
Desde há séculos que os tempos não são fáceis para os povos indígenas e o cenário atual não é esperançado. Com o passar do tempo, estas comunidades cada vez contam com menos indivíduos e a sua cultura, conhecimentos e linguagens estão desaparecendo há já muitos anos. Os povos indígenas têm sobrevivido a várias doenças como a varíola, a gripe, o sarampo, e como vimos, também à COVID19. Também sobrevivem a explotação de recursos ambientais que destroem e contaminam os seus territórios e a fatores sociais como o colonialismo, as guerras, a escravidão e o racismo. Não há dúvidas, de que os atuais povos indígenas são sinônimo de resiliência.
Nota: Artigo escrito seguindo as regras ortográficas do Brasil
