“A paixão segundo G.H.”, de Clarisse Lispector

Este livro é como um livro qualquer.

Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada…

Clarice Lispector

Não acredito que tenha a alma completamente formada, mas a que leu este livro rendeu-se à genialidade de Lispector.

Publicado em 1964, o romance de 180 páginas, sem divisão de capítulos, contém uma história bastante simples.

G. H., uma mulher bem-sucedida profissionalmente, decide fazer limpeza ao quarto da empregada, que despedira, há seis meses. Ao contrário do que esperava, tudo está limpo, luminoso e arejado. Numa parede, três desenhos a carvão, feitos por Janair: os contornos de uma mulher, um homem e um cão, independentes uns dos outros. No roupeiro, surge uma barata, que ela tenta matar, fechando a porta, acabando por comer o interior do inseto.

A autora não pretende desenvolver um enredo. Interessa-lhe discorrer sobre o autoconhecimento, o existencialismo, o propósito da vida, através de um fluxo de consciência, que nos revela os pensamentos e divagações da personagem. É esta que analisa o seu eu (narrador autodiegético), num tempo psicológico. Divide os pensamentos com o leitor, na procura pela cumplicidade com ele. Aliás, é interessante conhecermos apenas as iniciais da personagem. Não lhe atribuir nome e sobrenome permite que muitas pessoas se identifiquem com a protagonista. Frágil, vulnerável: “sou aquilo que de mim os outros veem.” Sempre à beira de um abismo.

“...de imaginar eu sempre tivera tempo.” A narradora sabe que as portas se estão a abrir para a vida, mas a vida é o nada. Finalmente, sucumbe. O nada passa para o agora.

Não consigo impedir-me de relembrar outro livro sobre o vazio de cada um: Nada, de Jane Teller. Inicialmente proibido na Dinamarca, desencadeou debates acesos e controversos por mostrar, de forma bastante realista, a pilha de significados macabros que um grupo de jovens “oferece”, em nome da falta de importância da vida.

A obra está plena de símbolos que orientam a leitura para a busca que G.H. faz de si.

É o quarto vazio da empregada que a leva refletir sobre o seu vazio interior. E a solidão. Este espaço proporciona o conflito da personagem com as suas angústias e medos, gerando uma tensão psicológica. Um quarto, metáfora do vazio e da caminhada individual e coletiva pela vida.

A barata é o elemento mais impactante da obra. Através dela, G.H. sente que começa a perder a humanidade, apesar de perceber a sua pequenez, quando o inseto a olha de cima. Encara-a, esmaga-a e come uma parte do seu interior. Já passou pela sensação de náusea e pela angústia que antecede o clima de catarse, até atingir o clímax, que acaba numa espécie de epifania. Ao expelir a massa branca do interior da barata, percebe que ela não sabe a nada. Expele-se a si mesma.

No fim deste processo, acompanhado da introspeção com as mais díspares associações, chega à resposta da sua verdadeira razão de existir: a tortura (a psicológica da narradora, a física da barata), necessária para conhecer o nosso íntimo. Não conseguindo narrar a sua experiência, encerra a narrativa.

Mas é que também não sei que forma dar ao que me aconteceu“, dizia já no início. Deixou de ser, por isso passou a ser.

Esta é uma obra brilhante pela inovação. A autora subverte a linguagem. Formal, com palavras e expressões menos comuns, uma estrutura objetiva e curta. Deixa frases e excertos da história incompletos ao passar de um pensamento para outro. Termina períodos longos com dois pontos. Repete a última frase de cada parte no início da seguinte, como elemento de continuidade.

Inova, ainda, nos procedimentos literários. Representa a realidade de forma poética e polissémica, numa narrativa fragmentada alicerçada pelo fluxo de consciência.

A obra insere-se num surrealismo plausível. Afinal, a narrativa peculiar sobre a barata pode ser considerada um daqueles atos inconscientes e desesperados, que algumas pessoas fazem quando estão sozinhas.

Um livro incomum. Que bom!

Nota: Este artigo foi escrito, segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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