Não adormece. Não consegue. Está deitado na cama, sozinho, ouvindo o relógio da cozinha. Sabe que a mulher está a dormir no quarto da filha – ou espera que esteja a dormir – depois de alguns comprimidos. A ele não lhe fazem efeito.
Continua a ouvir o tic-tac do relógio. Tic. Um segundo. Tac. Outro segundo. Olha para o relógio digital ao lado da cama, que marca 6 da manhã. O tempo não passa. E ele quer tanto que o tempo passe, rápido, bem rápido. Ou que retroceda, seria sempre melhor. Sim, que retroceda, e por momentos sente-se nervoso, exaltado, esperançoso. Mas a esperança passa. É impossível. Não vai acontecer.
Suspira.
Tenta não pensar. Não quer pensar, de que adianta? Mas não consegue, não consegue evitar pensar, lembrar-se, sentir. Chora.
Chora até lhe doer a cara, os olhos, a alma. Quer desaparecer. Não pode. Quer desaparecer, acabar. Não pode. Limpa as lágrimas, ainda a soluçar, e agora o choro é baixinho, é sofrido, é de animal magoado. Mas não lambe as suas feridas, porque sabe que não há nada que o possa curar. Nada.
6 e 10 da manhã.
Toma outro comprimido, o quinto naquela noite. E se morrer? Morreu. Não, não consegue pensar nessa palavra, nessa fase, nesse fim. Toma o comprimido e fecha os olhos, ignorando as lágrimas mansas que ainda lhe correm as faces e lhe cortam as orelhas para chegar à almofada.
Sonha com corredores, com hospitais, com gritos e caos. Sonha com nada, com negro e com branco. Sonha com fogo e com água. Com cartas, com sorrisos, hospitais e nuvens. Mas quando acorda não se lembra com o que é que sonhou. Nem se lembra de ter estado a dormir.
Olha para o relógio, com os olhos vermelhos e derrotados: 7 horas.
Hora de levantar. Hora de acordar e enfrentar a realidade. Não, hora de acordar e enfrentar o pesadelo. Hora de se levantar e de se vestir, de apoiar a família. Hora de perdoar. Hora de perder. Hora de seguir, de viver, de morrer. De acabar.
Olha para o relógio de novo, e fica a fitá-lo sem saber o que fazer nem em que pensar. 7h01. Dia de enterrar a sua filha.
