A Loja da Esquina não tem um título feliz (ou talvez até tenha e eu seja só esquisito), mas Ernst Lubitsch, o grande mestre da Comédia Romântica, pouco se importava com tais minudências quando contruía um filme do género, que ao ser mais Comédia do que Romântico, não terão sido poucas as vezes em que o Romantismo venceu a Comédia no coração dos espectadores.
Realizado em 1940 e contando com James Stewart e Margaret Sullavan, o filme conta a história de dois empregados de uma loja (numa esquina) que não podem um com o outro, tendo cada uma relação por correspondência em quem depositam, idealizam, projectam e imaginam todo o romantismo que a vida de carne e osso ainda não lhes ofereceu. O resto está-se mesmo a ver.
O filme é bonito, está bem construído, encontra o ritmo perfeito e a química com que os dois protagonistas não se suportam é essencial para o que fica na retina. Julgo ser, ainda que não tenha visto o filme com Tom Hanks e Meg Ryan, a versão original de Você Tem Uma Mensagem. A Loja da Esquina mostra-nos que o Tinder (ou uma forma de aproximação – a carta – que, com o devido distanciamento, cumpria um propósito semelhante) não é uma invenção do século XXI, diferindo desse outro canal pela tecnologia, pela surpresa e pela caligrafia. Podemos contornar o cenário e assumir que o Tinder é tão romântico quanto o eram as cartas, e ainda que nestas transpareça algo de misterioso ao ler-se o outro nas suas próprias palavras, talvez a aplicação de encontros se torne mais misteriosa pelo modo como, com o tanto que pode mostrar do outro, é capaz de iludir tanto.
Deixando o parêntesis “Tinderiano”, foi com agrado que vi este filme na Cinemateca, num fim de tarde depois do trabalho. Talvez tenham passado dez anos, não sei, mas sei que foi o primeiro contacto com Lubitsch. Amor à primeira vista. O filme mostrou-me o génio do cineasta alemão, confirmado mais tarde – sempre na Cinemateca – com Uma Mulher Para Dois, que aproveitou uma permissividade do Código Hays para, no longínquo ano de 1933, desafiar os brandos costumes ao mostrar uma história de relação a três no Cinema (seria depois banido pela Legião de Decência), e Ser ou Não Ser, talvez o seu filme mais conhecido.
A Comédia Romântica é um género difícil – pode predispor quase sempre bem mas fazê-lo bem é outra história. Quando recebemos o melhor dos dois mundos de uma obra de arte – qualidade e satisfação – sentimo-nos completos e este filme conseguiu isso naquele fim de tarde. Não o voltei a ver e talvez o facto de pouco esperar na altura tenha ajudado a guardar esta história para a verter aqui. Não obstante, é um regalo poder assistir a estas coisas.
