A nossa imagem é muitas vezes apelidada de “o nosso cartão de visita”. A primeira impressão só se causa uma vez e pode definir muitas coisas. Mas quando tiramos demasiadas conclusões numa primeira impressão, olhando apenas ao aspeto, à imagem, podemos estar a fazer um mau julgamento. É o que costuma acontecer comigo – não comigo em concreto, mas em relação a mim.
Tenho 25 anos e meço 1,52m – já meço isto há muitos anos. Não sou muito gorda, nem muito magra, nem tenho um peito grande. A somar a estas características, tenho um rosto “de menina”, com nariza arrebitado, bochechas rosadas e covinhas quando sorrio.
Nunca – NUNCA – me dão a idade que tenho e isso é muito engraçado (tem dias). Entrar na piscina pública de forma gratuita bem depois dos 12 anos, a cara do segurança da discoteca quando percebe que não só tenho 18 anos, como tenho mais 5, alguns elogios, “quando tiveres 40 anos, vai parecer que tens 20”. Muito engraçado, tem dias. Deixa de ter graça quando essa primeira impressão faz com que me tratem de forma infantil ou até desrespeitosa porque “é impossível esta carinha laroca ser de um adulto”. Contexto:
Estou em teletrabalho e tocam à campainha. Espreito à janela: são dois homens, um significativamente mais velho do que o outro, talvez com 30 anos de diferença, sendo o mais novo não muito mais velho do que eu; ambos vestem fato e gravata. .
Desço, abro a porta e digo “bom dia”. O mais novo olha para mim, põe as mãos nos joelhos e exclama com uma voz bem mais aguda que a sua voz natural: “Olá querida, os teus pais estão em casa?”
Fiquei branca. Abri a boca estupefacta. Pus a minha cara mais séria e respondi-lhe: “Os meus pais não estão em casa. Eu sou uma mulher adulta e vivo com o meu marido e a minha filha.”
O rapaz desfez-se em mil desculpas e deu a volta dizendo que “até me estava a fazer um elogio”.
Claro que é uma história muito engraçada quando devido ao nosso aspeto passamos por situações caricatas: sermos confundidas como irmãs/filhas de alguém que é da mesma idade que nós até nos pode massajar o ego. O tempo passa e torna estes episódios em coisas giras de recordar. Mas e se alguém te der prioridade por estares grávida quando não estás? Se alguém recusar atender-te numa loja de luxo porque não pareces ganhar o suficiente para comprar aquela marca? Se alguém te chamar senhor e és uma mulher? Todos estes exemplos são formas de abordagem condicionadas não pelo teu aspeto físico, mas pelas conclusões ou julgamento que alguém fez sobre esse aspeto – conclusões que se viriam a perceber ser completamente erradas.
Cingir-nos ao superficial pode toldar-nos o julgamento e fazer-nos assumir coisas sobre o outro que podem não ser verdade. Enquanto estes pensamentos pairam apenas na nossa cabeça, está tudo bem. O que faz o caso mudar de figura é quando esses pensamentos se verbalizam de uma maneira menos correta, no sentido em que estão “contaminados” com ideias que nós atribuímos ao outro. No caso anterior, se o objetivo era perceber se havia um adulto em casa para falar de um assunto dirigido a adultos, o rapaz podia ter dito: “Bom dia, gostaríamos de falar sobre este assunto. Que idade tem?” E conseguia facilmente perceber se eu estava na faixa etária que ele pretendia ou não, sem passar pelo embaraço de me tratar como uma criança.
O que fica à tona, o que está na linha da água não pode ser o único fator decisivo na hora do mergulho – se nos mandarmos de cabeça e o fundo estiver mesmo ali, o desfecho não pode ser bom. Por outro lado, se formos pôr o pé e não houver fundo, afundamos.
Então, antes de saltar para a água, olha bem (bem bem) para lá e pensa se já estás a ver o fundo ou se é melhor ires com cautela.
Se alguém já deu o mergulho e foi de chapa, lança-lhes a boia com elegância.
