Entre a urgência de opinar e a arte de escutar
Vivemos tempos de certezas afiadas. De opiniões prontas. De verdades lançadas como pedras, não como pontes. Estamos sempre a um clique de distância de um julgamento, uma análise, uma resposta. E quanto mais rápido, mais assertivo — melhor.
Mas essa pressa de acertar tudo cansa. Essa obrigação de ter sempre algo a dizer sobre tudo desgasta. Porque há uma exaustão, silenciosa e insistente, em nunca poder dizer “não sei”, “não tenho certeza”, “preciso pensar mais sobre isso”.
Estar certo o tempo todo virou um dever moral, social, quase existencial. Na era das redes, quem hesita parece fraco. Quem pondera é acusado de em cima do muro. Quem se permite contradizer é visto como incoerente.
Só que a vida real — a complexa, a que pulsa fora da tela — raramente cabe em respostas absolutas. Ela se movimenta no meio-termo, nos parênteses, nos silêncios.
Quando foi que desaprendemos a escutar?
Ser adulto, hoje, parece significar ter uma opinião formada sobre política, educação, saúde pública, inteligência artificial, geopolítica, arte contemporânea, futebol e mudanças climáticas — tudo ao mesmo tempo. E não basta opinar: é preciso tomar posição, defender com veemência, vencer debates que ninguém pediu.
Mas o mundo não precisa de mais certezas. Precisa de mais escuta. De mais espaço para a dúvida. De mais gente disposta a perguntar antes de reagir. De mais gente que aceite que nem tudo se resolve com um argumento de efeito ou uma frase de impacto.
E não, isso não é apatia. Nem alienação. Muito menos covardia. É maturidade.
É entender que algumas questões não se resolvem no calor da emoção. Que há causas que exigem estudo, escuta, contato com realidades que não são as nossas. Que empatia, muitas vezes, é ter a coragem de não saber — e mesmo assim se importar.
A obsessão por estar sempre certo também tem seu custo afetivo. Quantas amizades se rompem porque alguém não “concordou como devia”? Quantos diálogos viraram batalhas? Quantas relações ficaram insustentáveis porque um dos lados não soube recuar, respirar, dizer “entendi seu ponto”?
Ser relacional exige mais do que argumentos: exige afeto. E afeto, às vezes, se manifesta justamente no esforço de compreender o que não é espelho.
Talvez seja hora de reaprender a conversar. De aceitar o tempo da dúvida como parte do processo. De entender que algumas posições mudam — e que isso pode ser sinal de crescimento, não de fraqueza.
No fim, o que esgota não é discordar. O que esgota é não poder parar. É viver em modo debate. É estar sempre com os punhos fechados, mesmo quando o outro só queria dividir uma pergunta.
Estamos todos cansados de estar sempre certos.
Talvez seja tempo de trocar a urgência de opinar pela generosidade de escutar. De reconhecer que o mundo não precisa da nossa certeza — precisa da nossa presença. E que às vezes, o que mais aproxima, não é o argumento — é o silêncio entre as frases.
Nota: este artigo foi escrito segundo as normas do português do Brasil.
