A beleza que ninguém toca

A beleza sempre foi espelho e invenção: refletiu culturas, valores e épocas — e também os moldou. Já foi símbolo de divindade, traço aristocrático, atributo racial, obsessão de mercado. Hoje, vive mais um de seus giros: na era do Photoshop e das imagens hipereditadas, o que é, afinal, ser belo?

Num mundo em que rostos passam por filtros antes de serem vistos e corpos são moldados com um deslizar de dedo, a beleza parece cada vez menos pele e mais pixel. Espécie de névoa luminosa que escapa do real, ela se esconde em avatares de porcelana, nos reflexos polidos de uma tela. Segundo o relatório Girls’ Attitudes Survey 2020, publicado pela Girlguiding UK, 48% das meninas e jovens mulheres entre 11 e 21 anos afirmam usar regularmente filtros ou aplicativos para modificar suas fotos antes de publicá-las online — um dado que revela não vaidade, mas vigilância.

Esse dado ecoa outro achado perturbador: de acordo com estudo conduzido pela University of the West of England, apenas 5% das mulheres se consideram bonitas, enquanto 87% comparam seus corpos aos padrões veiculados pela mídia — um espelho deformado por ideais inalcançáveis. A autoestima se torna refém de uma estética que não é só rara — é, frequentemente, fabricada.

A idealização não é nova — há séculos pintamos Madonas e esculpimos Vênus. Mas, ao contrário das formas imortalizadas em mármore, hoje as imagens mudam ao toque de uma tela, gerando versões editadas de si que não envelhecem, não engordam, não erram. Avatares gerados por IA já participam de concursos de beleza como o “Miss AI”, promovendo uma estética homogênea e quase inumana, como denunciou a Vogue Business. A Glamour acrescenta: ao comparar-se a essas figuras irreais, muitos jovens desenvolvem padrões de autocrítica mais severos e ansiedades em relação à própria imagem.

Esse fenômeno afeta não só o indivíduo, mas o coletivo: a padronização visual tem efeitos políticos, apagando a diversidade que compõe o real. A beleza — que deveria ser expressão do múltiplo — torna-se cada vez mais genérica, com bocas simétricas, peles lisas e corpos que não pertencem a ninguém. Os algoritmos que alimentam essa estética não operam no vácuo: eles aprendem com os dados que damos, e os devolvem em forma de uma perfeição sem alma, refletindo as preferências — e os preconceitos — de quem programa.

O que acontece, então, com o senso de identidade quando a régua da beleza está constantemente fora do alcance, medindo aquilo que nem é humano? Naomi Wolf já alertava em O Mito da Beleza (1991): “A obsessão pela beleza é a última prisão politicamente eficaz das mulheres”. Segundo ela, a beleza transformada em imperativo moral serve como instrumento de controle — molda comportamentos, dita normas, silencia vozes.

A questão, portanto, não é apenas estética — é ética, cultural e social. Se todos os rostos exibidos são esculpidos à perfeição digital, o que acontece com os nossos, cheios de poros, histórias, e assimetrias? Estamos diante de uma geração que cresce não apenas desejando ser outra, mas acreditando que só será amada se for. E isso, para além da vaidade, é uma ferida de pertencimento.

Não se trata de demonizar os filtros ou a tecnologia — eles podem ser ferramentas criativas e expressivas. Trata-se, sim, de olhar com mais nitidez para os efeitos desse culto ao irreal. A beleza precisa voltar a incluir o imperfeito, o idiossincrático, o humano. Precisa de mais rugas de riso, mais cicatrizes com história, mais olhares que brilham fora da tela.

Talvez seja hora de desinstalar os filtros não dos aplicativos, mas do olhar. E reconhecer que a beleza mais verdadeira, mesmo quando sutil, ainda pulsa longe dos holofotes digitais.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.

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