7ª ARTE APOCALÍPTICA

A ideia de “Apocalipse” derivou de narrativas mitológicas da criação na antiga Pérsia que foram, posteriormente, transmitidas ao judaísmo e cristianismo primitivos. Apocalipse é a palavra grega para revelação, mas o uso mais “recente” deriva da sua utilização no título do último livro da Bíblia: O Livro do Apocalipse. O antigo uso da palavra apokalypsis mostra que não se trata de um construto moderno e, desta forma, o pensamento apocalíptico acaba por abranger todos os principais aspectos da vida – também – no século XXI, tornando-se um marco na nossa cultura popular. Isso está presente no cinema, na literatura e até nos pequenos movimentos do dia-a-dia, que nos fazem aspirar a um melhor amanhã, pondo fim a tantos ciclos, destruindo tantos “passados”, procurando incessantemente um novo e melhor mundo.

“Greenland” (2020) não é excepção. Fala-nos do fim dos tempos – causado por uma crise – e do início de uma era para vir. Da destruição à escala global, prevista por tantos profetas ao longo da História. De uma espécie de Sodoma e Gomorra e da viagem de alguns escolhidos, rumo a uma Nova Jerusalém. Para judeus, cristãos e muçulmanos, a promessa paradisíaca do Apocalipse está cheia de metáforas e vemos isso na personagem de John Garrity que, à semelhança de Daniel, representa o herói que luta contra o monstro do caos. Só que em “Greenland” não há profecias, visões ou uma mensagem divina. Há apenas uma mensagem presidencial, que representa esse poder superior e selecciona os escolhidos. Não podemos esquecer que os Estados Unidos são, efectivamente, uma nação apocalíptica e que isso se espelha na produção hollywoodesca em torno da temática.  Um número considerável de americanos defende crenças apocalípticas e acredita numa segunda vinda de Jesus. Ao longo da história americana, as crenças apocalípticas assumiram várias formas e atraíram vários seguidores num vasto espectro político e social. Esse retrato tem vindo a ser feito um pouco em todas as áreas artísticas e está também muito expresso na forma dos EUA fazerem política.

Em “Greenland”, apesar da multidão acreditar ser o fim do Mundo, a maior parte apenas quer a salvação, sem prejuízo do outro. No entanto, existe quem não tenha os mesmos princípios. Podemos ver isso quando Nathan (filho) é raptado. O “nós” vs. o “outro” manifesta-se de forma mais vincada nos momentos em que a identidade está ameaçada e o “nós” aparece como subjugado ou, neste caso, não escolhido. Desde sempre que a sensação de “não escolhido” acabou por unir os grupos, gerando situações de revolta e, algumas vezes, violência. Actualmente vemos isso nos grupos “antivaxx” que se manifestam contra um mundo que pretendem mudar, porque sentem que a sua decisão de não se vacinarem os faz “não escolhidos”. Chegam mesmo a comparar-se com os judeus que passaram pelo Holocausto, apropriando-se de simbologia como a estrela de David nas analogias que fazem. Todos os momentos de crise potenciam a união do “nós” e, consequentemente, a demonização do “Outro”.

A ideia do filme passa, então, por essa escolha de quem irá povoar o Mundo no pós-apocalipse. Para isso, essas pessoas devem ser transportadas em aviões militares até abrigos na Gronelândia. Difícil não recordar a narrativa de Génesis, nos versículos respectivos ao dilúvio. Neste caso, também a família Garrity permanece num abrigo, neste caso 9 meses, representação do tempo de gestação até à origem de uma vida nova. Não é uma “arca”, mas um bunker que os protege da destruição do Mundo. Ao sair, uma nova vida apresenta-se. O cenário é de destruição, mas de esperança. Os pássaros chilreiam. Os intercomunicadores vão revelando os sobreviventes, um pouco por todo o Mundo. Núcleos de escolhidos que sobreviveram ao fim dos tempos, para repovoar uma “Nova Jerusalém”. O momento em que os povos se comunicam, lembra-me a reunião das Tribos de Israel. Mas eis que as portas se abrem e não há um Mundo novo, mas um velho Mundo que terá de ser reconstruído.

Este potencial construtivo do Apocalipse resume a mensagem de “Greenland”. Na verdade, nada de novo surgirá após o fim. Construção é a palavra-chave. Os povos terão de se unir para criar uma nova forma social. Se, por um lado, isso é uma esperança na capacidade transformadora do indivíduo, por outro, vemos que Hollywood não faz aquilo que prega. Mais uma vez, o cristão caucasiano é o escolhido bem como a já tradicional família separada, que também se reconstrói no pós-apocalipse. Como um regresso ao Éden pelo casal absolvido dos seus pecados. Afinal, falamos de construir algo novo, mas a indústria cinematográfica americana parece dar-nos sempre o mesmo modelo conservador de sempre.

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