O regresso
A vida de Stéphanie Domingues, de 24 anos, dava um filme. Nasceu emigrante, em França, convenceu os pais a colocar um ponto final a 35 anos de emigração, tirou o Curso de Enfermagem na Escola Superior de Saúde de Viana do Castelo, porque, para além de ser a área para qual sentia ter vocação, não acreditava que iria ser atingida pela crise. Enganou-se. Há cerca de um ano, teve que fazer novamente as malas e partir para segurar a única proposta de trabalho que recebeu na área, no Hôspital Prive D’ Antony, ironicamente, em Paris.
“Pensei que fosse uma área que a crise não atingisse, pois, infelizmente, há sempre doentes e são sempre necessários profissionais de saúde para dar resposta às suas necessidades. Contudo, parece que há demasiados profissionais de saúde, em Portugal, tendo em conta a população, o que acho completamente absurdo, pelo que somos praticamente obrigados a emigrar para fazer aquilo que mais gostamos e que nos realiza”, afirma.
Longe de Portugal, sempre desejou viver na sua aldeia, em Melgaço. “Em Portugal, o que mais apreciava era a minha aldeia, longe de tudo, com montanhas, animais e com outros hábitos de vida – tudo aquilo que eu não via em Paris. Além disso, estar em Portugal permitia-me estar junto da minha família mais próxima, algo que eu não tinha em França”.
Antes de se aventurar por Paris fez de tudo. Durante os sete meses em que esteve no desemprego, tentou arranjar emprego dentro da Península Ibérica. “Quando terminei o curso, o meu objectivo era trabalhar em Portugal, ou em Espanha, para ficar perto da minha família e amigos. Também Espanha, porque tenho a sorte de ter nacionalidade espanhola e estar completamente à vontade com a língua. Comecei por procurar trabalho na minha área, após algum tempo ponderei trabalhar noutras áreas, qualquer uma. Mandei currículos para centenas de anúncios e não obtive nenhuma resposta. Decidi, então, lutar por aquilo que queria e aventurei-me a ir para França. Tentei de tudo por ficar, mas, infelizmente, sem emprego isso não foi possível, a minha última opção foi a emigração”.
Nesta segunda mudança de vida, o que mais custou “foi deixar as pessoas que mais gosto”, sem falar no “facto de mudar de país, mudar de ambiente e sair de uma aldeia para viver numa das maiores cidades da Europa”. “A adaptação foi um pouco difícil, mas depois habituamo-nos ao novo ambiente e acabamos por gostar desta mudança, apesar de sentir muita falta da rica gastronomia portuguesa (risos) ”.
Por tudo isto e pela experiência que está a ter, aconselha “fortemente” a emigração. “Arriscar não custa nada e quem não arrisca não petisca. Se não conseguem tornar-se independentes no seu país, emigrem. Apesar de ser difícil, é a única solução”.
Voltar agora já não faz parte dos seus planos. “Não quero ficar eternamente em França, mas para Portugal não pretendo regressar. Por razões pessoais, quando partir será para Espanha, onde procuro emprego. Por enquanto, aproveito para ganhar mais experiência profissional por aqui”.
Três histórias, três vidas, traçadas pelo mesmo destino: a emigração. Muitas outras havia para contar. Não são meros números de estatística, são casos reais de jovens que estão a ser exportados, virando as costas a um país que à partida apostou tudo neles. Este é o espelho de toda uma geração de emigrantes e de quem todos se lembrarão, quando for o momento de escrever a História do início do século XXI de Portugal.
