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Sociedade

Voluntariado: semente da mudança social

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“Se puderes olhar, vê. Se puderes ver, repara.”

– José Saramago

O tempo, aquela entidade abstrata que se materializa nos ponteiros dos relógios ou na ameaçadora data-limite de algo que tem de se respeitar. Uns com mais e outros com menos. Não há dúvida de que é o recurso mais subestimado de que fazemos uso e ao qual menos importância damos se comparado com o dinheiro ou outros bens.

Anualmente em 5 de dezembro desde 1985 celebra-se o Dia Internacional do Voluntário. A data serve para assinalar a importância que o tempo dado gratuitamente em prol de outros e de causas apresenta para a sociedade.

As estatísticas revelam que existiam em 2018 cerca de 695 mil voluntários, sendo que a maioria dos voluntários são do género feminino (cerca de 55%); sinteticamente poderíamos traçar o perfil do voluntário como alguém jovem, desempregado, escolaridade elevada e solteiro. Não sei de quem será o recorde de pessoa com mais tempo de voluntariado, mas vi recentemente numa notícia que uma associação iria premiar um dos seus voluntários pelos 40 anos de serviço. Este indivíduo dedicou o tempo livre que tinha e prol dos outros por 40 anos. Poucos poderão orgulhar-se de tal feito, até porque os dados revelam que à medida que se avança nas faixas etárias a percentagem de pessoas a fazerem voluntariado vai diminuindo.

Na entrevista que dei para o ShadowCast, o Emanuel Almeirante disse algo cheio de sentido e que nunca mais me vou esquecer: “O Tempo é o único bem que não é recuperável”. Quando o voluntário dá do seu tempo em prol de outros, ele está a dar o bem mais precioso que pode dar: tempo. Numa sociedade em que o tempo é contado ao segundo e tudo nos é fugidio, muitas das vezes a forma mais impactante de ajudar outros é dar o que ninguém tem: tempo. Entre notificações e mensagens; entre ter de correr antes que o semáforo proíba a passagem; entre a data limite e a hora de saída; a quem já não ocorreu ter recebido uma indicação muito rápida, porque não tinha tempo? Provavelmente nos recordaremos mais daquela pessoa que, pese embora estivesse com presa, nos respondeu com um sorriso e como se tivesse todo o tempo disponível para nos aclarar.

Todos já ganhámos mais de salário (ou menos); a grande maioria já não usa os mesmos carros com que começou a ganhar experiência na estrada. Os bens materiais, podem ser mais ou menos, mas o tempo é o único bem que não conseguimos comprar nem recuperar. Até posso recuperar a carteira perdida ou aquela nota de 5€ que ficou esquecida desde o último inverno no bolso do casaco, mas não posso nunca mais recuperar o tempo desperdiçado ou que gostaria de repetir ou, ainda, de que gostaria de reviver. Lá diz o provérbio: “o rio não passa duas vezes pelo mesmo sítio”.

Agora que começa o ano e as tradicionais listas do que fazer já se começam a esboçar, porque não dedicar tempo a outros, através de uma associação ou outra entidade, e desta forma mudar um pouco a realidade que nos rodeia? Queixamo-nos de que tudo está sempre na mesma, porque não tomar atitude de escalar um degrau na escada da mudança social? Poucas vezes haverá retorno mais precioso do que o do tempo dedicado em prol de uma causa. Mais do que ajudar outros, é ter a possibilidade de crescimento e enriquecimento pessoal, enquanto se promove mudança social.

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Davide Morais Pires
Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

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