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Contos

um casal tão bonito.

A brisa soprou-lhe suavemente na nuca, arrepiou-se. Sentia o peso da velhice nas pálpebras murchas que se fechavam devagar, estava cansado, agastado pela espera. Entrelaçou, com dificuldade, os dedos enrugados e disformes e posou as mãos trémulas sobre o colo, tinha as calças de fazenda manchadas, o fecho, encravado, já não corria até cima. Abílio, sentia a tristeza da solidão até nas coisas mais simples: no seu cheiro fétido de anos mal ensaboados, nas unhas dos pés desalinhadas, em tudo o que ficava por remendar. Nunca pensou viver tantos anos. Lembrou-se dela, sentada na ponta do sofá, com as suas calças para abainhar no colo e a agulha presa no meio dos lábios. A luz do candeeiro iluminava-lhe o rosto simétrico, os cabelos castanhos entrançados. Às vezes, parava para endireitar as costas, dizia coisas que ninguém entendia, bufava se lhe escapava o dedal. Quando acabava, pendurava as calças no cabide, passava-lhes a mão com afeto: já está, homem, dizia ela, enfatuada. Gostava de o ver aprumado, de o beijar depois de lhe ajeitar a gravata, envaidecia-se quando caminhavam juntos pela vila, que casal tão bonito. Sempre foi uma boa esposa, uma mãe dedicada, todos os dias lhe sentia a falta.

O rapaz empurrou-lhe a cadeira de rodas, despertando-lhe os pensamentos:

– Está na hora de ir descansar, senhor Abílio. Já cheira a Outono, não é?

Era um rapaz alto, tinha os ombros largos e um sorriso fácil, lembrava-lhe o filho mais velho. Ouviu dizer que já era pai, que tinha uma menina muito bonita. A última vez que ele o visitou foi logo depois de o levarem para ali, pouco falaram, já não havia nada para dizer. Alegrava-lhe a ideia de ser avô, embora soubesse que nunca lhe sentiria o peso. Apenas para a morte guardava o regaço.

– Sim, está a pôr-se fresco. – respondeu.

Abílio já não se interessava pelo tempo, nem pelo relógio. Era uma sombra, seguia arrastado por vontades alheias, condenado aos dias que lhe teimavam. Doía-lhe o corpo preso, as pernas resignadas a lugar nenhum.

Enquanto se sentia a deslizar pelos corredores, fechou os olhos e lembrou-se novamente dela, do dia em que casaram e dançaram até lhes doerem as pernas e se deixarem cair, tocados pela felicidade e pelo vinho. Das noites em que se amavam tantas vezes que já não se distinguiam. Do cheiro a prazer que lhes ficava nos lençóis, nas paredes do quarto, nas mãos ainda macias, dentro deles. Ela, a carregar os filhos no ventre, a fazê-los felizes.

Sentiu uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto envelhecido. Tantos anos ali, a viver de memórias que lhe aumentavam a dor e a culpa. A recordar o homem que foi antes de se tornar no que fez, antes de a amar demasiado, de lhe colocar as mãos já calejadas à volta do pescoço, de o apertar até lhe ver faltar o ar e a vontade de partir. Não ia a lado nenhum, não sem ele. Eram um casal tão bonito.

Abriu os olhos, sobressaltado pelo barulho das grades a fecharem-se. E a morte que nunca mais vinha.

Vera Agostinho

licenciada em jornalismo, mas dona de casa há uma década. gosta de escrever, fotografar, editar e ver documentários sobre pessoas desconhecidas.

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