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Tudo Boa Gente

Para Ashley Flowers, autora do livro Tudo Boa Gente, o conceito de multitasking parece ser uma constante. Em criança queria ser advogada, mas é actualmente, além de escritora, também fundadora e CCO da Audiochuck, anfitriã de podcast, amiga, mãe, esposa e tutora de um cachorro. Ashley nasceu e foi criada no Indiana, onde continua a morar com o marido Erik Hudak, a filha Josie e o cão Chuck — que empresta o nome à empresa de media. Ashley tem um bacharelato em Ciências em Serviços Biológicos pela Arizona State University.

A saudação “Hi Crime Junkies” é reconhecida por milhões. Co-apresentadora, com a sua amiga Brit Prawat, do popular podcast “Crime Junkie” um programa com histórias de crimes reais e tem mais de 500 milhões de downloads, 630 histórias e já doou 643 mil dólares para acções de solidariedade. Ashley apresenta vários outros programas, incluindo “The Deck”, “Supernatural” e “Very Presidential”.

É a fundadora e directora criativa da Audiochuck, a premiada empresa de produção de media, onde encontramos programas como “Strangeland”, “Full Body Chills” e “Precedente”, entre outros. A Audiochuck e a sua fundadora já se viram envolvidas em algumas polémicas, como a acusação de que haviam usado o trabalho de jornalistas sem o devido reconhecimento. A empresa removeu vários episódios das plataformas de podcast, que voltaram a ser republicados com notas onde constam a lista fontes.

Referir ainda intervenção de Ashley no conselho de administração da “Season of Justice”, uma organização cujo objectivo é fornecer subsídios para ajudar encerrar casos não resolvidos.

Agora, a autora transporta os fãs dos podcasts para o papel, com seu livro de estreia, “All Good People Here”, em português Tudo Boa Gente. Ashley era já conhecida pela sua capacidade de criar histórias cativantes, às quais imprime empatia. Com o seu livro, vem não só confirmar a sua capacidade de cativar, como de construir uma narrativa onde o suspense é constante e a intriga espreita a cada página.

Ashley afirma numa entrevista à People que herdou sua paixão pelo “true crime” da mãe e da avó. “Era isso que minha mãe gostava quando eu era muito pequena, eu via Perry Mason com ela e lia Agatha Christie e Nancy Drew. E percebi que essas histórias fictícias eram baseadas no mundo real”.

O fascínio da sociedade em geral por histórias de crimes não é recente. As raízes do “true crime” podem ser encontrada no século XV, com a invenção da imprensa. Naquela época eram comuns as execuções públicas. Com a invenção da máquina de impressão por Gutenberg, vários eram os cartazes exibidos durante as execuções que detalhavam os crimes cometidos. Estes eram vistos pela igreja como uma narrativa moral a ser passada para os fiéis. Essencialmente o que mudou foi o formato que as narrativas adquiriam, influenciadas pelo contexto social e tecnológico. Os canais de notícias 24h, e o jornalismo mais sensasionalista, são fonte constante sobre true crime”, deixando um conteúdo inesgotável, que aliado ao crescente interesse das pessoas pelo crime, nos traz a livros como Tudo Boa Gente. Este, por se tratar de uma obra de ficção e por ser escrito com base no actual true crime”, beneficia de uma mentalidade mais crítica e sensível, que se afasta do sensacionalismo e de preconceitos.

Tudo Boa Gente é-nos maioritariamente contado através olhos de Margot Davies, uma jornalista que volta à sua terra natal para apoiar o tio, que está a enfrentar problemas de saúde. Vinte anos passaram desde que Margot deixou Wakarusa, onde a sua amiga e vizinha January foi assassinada, quando ambas eram crianças. Margot cresceu com o conhecimento da fragilidade e efemeridade da vida. A morte de January nunca ficou esclarecida. O assassino nunca foi encontrado. E Margot nunca esqueceu o crime que influenciou não só a sua vida, mas também a sua carreia como jornalista.

A chegada de Margot a Wakarusa coincide com o desaparecimento de Natalie Clark, de cinco anos. Este crime e as memórias despertadas, levam Margot a envolver-se pessoalmente. Esta promete a si mesma encontrar a menina desaparecida e a encontrar o assassino de January.

Contudo, ninguém parece disposto a falar abertamente. A polícia, a família, os habitantes da vila em geral todos têm algo a esconder. E quanto mais profundamente Margot investiga, mais resistência encontra, mais afastada da verdade se sente e mais riscos corre.

A sua busca pela verdade levanta muitas questões e Margot precisa de alguém disposto a falar e o preço a pagar para solucionar este mistério pode ser demasiado elevado.

Ao longo do livro permanece a pergunta do que são capazes as pessoas quando têm a convicção de que não estão a ser vistas?

Esta história é ficção e, apesar da autora afirmar que não se baseou em nenhum caso concreto e nem em nenhum episódio de podcast específico, admite numa entrevista à People que é impossível que a sua vida em torno do “true crime” não passe para os seus livros. Assim, os leitores podem notar várias semelhanças com casos reais, como o de JonBenét Ramsey ou o de April Tinsley.

A história no livro acontece em duas linhas temporais alternadas o passado, que começa em 1994 e o presente, que acontece no ano de 2019. Onde a narrativa está muito bem construída, com descrições pormenorizadas, na medida adequada. É um thriller que nos prende desde o primeiro capítulo e que só conseguimos largar na última página. A autora soube manter o suspense ao incluir várias reviravoltas, ao passo que ia deixando pistas sobre as motivações de cada um dos suspeitos. Há avanços e recúos na investigação, mas a seu tempo tudo se encaixa. Como um bom thriller, mantém oculto o assassino até ao final, levando os leitores a desconfiar de vários membros da família, de habitantes da aldeia e mesmo de forasteiros, sem nunca desvendar demasiado, sendo que no decorrer do livro, são deixadas pistas subtis que, no final, revelam a identidade do assassino. Essas pistas são como peças de um puzzle, que podem ser encaixadas e que nos permite compreender e concluir a história de forma coerente.

A narrativa desenvolve-se numa vila, e não foram esquecidas as más línguas e os boatos, característicos dos meios mais pequenos. O contexto social e temporal promove a compreensão dos acontecimentos e ajuda a entender como os crimes são percepcionados pela colectividade.

Ao longo do livro e para além da questão do crime propriamente dito, a autora levanta questões sociais de elevada importância e bastante actuais. Como a erotização precoce das crianças e os riscos que dela decorrem. Também refere as dificuldades enfrentadas pelos doentes com demência precoce, sendo muito difícil aceitar que uma pessoa mais jovem tenha demência, particularmente quando não se conseguem ver alterações físicas evidentes. Aborda a questão dos desafios que os cuidadores enfrentam, entre as quais as alterações profissionais, que são significativas e nem sempre desejadas; sendo essas responsabilidades assumidas maioritariamente pelas mulheres. A questão da instabilidade financeira dos mais jovens também é mencionada. Assim como as falhas de comunicação, quer entre pais e filhos, quer entre as famílias. Vários preconceitos são referidos, nomeadamente sobre as relações homossexuais. Como não podia deixar de ser, chama também à atenção para erros e injustiças no sistema judicial. Que chega mesmo a ver limitadas linhas investigativas por pressão dos media.

Este é um livro com um final semi-aberto, já que a autora nos dá a conclusão sobre o crime, mas deixa em aberto a prática de um outro. Não desvendando o final, deixo apenas a informação avançada pela autora numa entrevista à revista ELLE, “Eu queria que os leitores se afastassem a sentir desconforto, porque isso representava o mundo em que eu vivo”. Ver as injustiças serem investigadas e os crimes resolvidos, é satisfatório e reconfortante. Mas autora lembra-nos que vivemos num mundo cada vez mais imprevisível, e o final do livro transparece essa imprevisibilidade.

Até ao momento, a autora não revelou ter planos concretos para escrever uma sequência deste seu thriller de estreia, mas deixou em algumas entrevistas a possibilidade de o fazer no futuro.

Este foi um excelente livro de estreia para Ashley Flowers. Estou curiosa para ler novas obras da autora e ver como será a sua evolução na escrita. Recomendo vivamente Tudo Boa Gente aos que gostam de thrillers e suspense.

Resumindo o livro numa frase a comunicação familiar é fundamental para que os seus membros sejam capazes de expressar as suas emoções e opiniões de forma assertiva, assim como fortalecer a confiança, pois não podemos ignorar que a família está na base da formação do cidadão e a qualidade da comunicação na família determina a qualidade de comunicação da sociedade.

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