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Tu és fake, eu sou fake… somos todos fake?

Sem pensarmos muito, fake significa falso. Porém, em português, falso não é a palavra que procuro, porque nada é uma falsidade realmente, o que acontece e o que vemos vêm de nós e nós somos verdadeiros, sabemos que existimos. Fake como apenas falso não espelha bem a cultura que se amontoa, dia após dia, nas redes sociais, na televisão e noutros meios de comunicação. Ora, isto resulta em gente que sai à rua a carimbar a testa de tudo e todos com um fake que por sua vez é falso também, pois, de tanto uso, deixou de ser apropriado.

O Cambridge Dictionary dá-nos, logo em primeiro lugar, um significado limpo e cristalino: not real, but made to look or seem real. Uma boa parte da nossa cultura, vida social e, quiçá, até pessoal, é pautada por esta noção, tudo (e eu sei que este «tudo» é perigoso) começa a tornar-se anti-real. Parece-me que existe aqui quase um paradoxo (ou antes um contrassenso), não muito complexo e interessante, é certo, antes banal, mas não deixa de ser intrigante. De tanta obsessão pelo real, de tanto querermos parecer genuínos e descomplicados, elementares, de tanta luta para se mostrar a vida tal como ela é (dizem eles que é assim), criou-se uma cultura que acabou a sobrepôr-se ao que é de facto real. Resta é saber se foi intencional (como máscara) ou se foi acidental (como sucedâneo de má qualidade).

Creio que a verdade reside na segunda hipótese foi acidental.

Não posso precisar a partir de quando, mas sinto que, há pelo menos uma década, tem surgido uma espécie de horror ao que é real de facto. Nada disto é confirmado, apenas pressinto que assim seja. Veja-se por exemplo: os reality shows nada têm de “reality”, pressente-se a léguas, e dão como fruto personagens elevadas ao expoente máximo do exagero e esforço para parecerem genuínas. A maioria dos programas de entretenimento, sobretudo aqueles que preenchem o horário nobre, são terreno fértil para falsa empatia e proximidade entre os intervenientes e com o próprio público. Por outro lado, no entretenimento menos ligeiro, de tanto se querer apurar um lado romântico e artístico da vida real, acontece o oposto e temos, no fim de contas, um produto televisivo pretensioso e que não permite a muita gente rever-se naquele ambiente.

Quanto à Internet, aí todos sabemos o que se passa. Atrevo-me a dizer que 80% dos perfis nas redes sociais em geral são morada de alter egos ou personas das pessoas de carne e osso que criaram esses mesmos perfis. Ninguém é o que se mostra ser na Internet, até pela natureza das coisas, é assim e pronto. É benigno, na maior parte das vezes.

Continuando pelo universo da Internet, têm ainda surgido aos meus olhos (e admito que possa ser só de mim) casos curiosos de gente que leva os seus dias a lançar ao mundo pedaços da sua rotina de uma forma tão exageradamente real que tudo o que vemos parece feito de plástico e cartão, é de má qualidade e completamente descartável.

Por fim, claro, há que referir certos meios de comunicação escritos, alguns jornais e publicações online que, mais uma vez, como todos sabemos, em muitas ocasiões guardam os escrúpulos e valores na cave e lançam boatos, rumores e deturpações da realidade como se tudo isso fossem notícias verídicas, credíveis e sérias.

Contudo, volto a repetir, tudo isto é benigno (excepto quando afeta a verdade jornalística). Aliás, todos estes “fenómenos” até enriquecem o valor do que é verdadeiramente a nossa vida; e atividades simples e corriqueiras passam a ter outra dimensão por estarem tão longe do que nos tentam impingir por aí como verdadeiro e certo nesta era digital.

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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