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Touradas: a cultura distorcida

As touradas foram incluídas, no último relatório de avaliação do cumprimento da Convenção dos Direitos das Nações Unidas no capítulo “violência contra as crianças”.

Consequentemente, o Comité dos Direitos da Criança da ONU recomenda que “o Estado Parte estabeleça a idade mínima para a participação a assistência em touradas e largadas de touros, inclusive em escolas de toureiro, em 18 anos, sem excepção, e sensibilize os funcionários de Estado, a imprensa e a população em geral sobre efeitos negativos nas crianças, inclusive como espectadores, da violência associada às touradas e largadas”.

Contudo e sem qualquer embargo, a indústria das touradas recebeu 200 mil euros do Orçamento Participativo para desenvolver uma candidatura para classificar a tauromaquia como Património Cultural Imaterial de Portugal!

Já não eram suficientes as regalias taxativas com o IVA a 6% – enquanto os tratamentos veterinários estão sujeitos à taxa máxima de 23% -, agora procuram, por fórmulas de cortesia, classificar esta brutalidade medieval ainda praticada na época moderna.

Não consigo, não quero nem posso respeitar quem defende esta violência.

Quem brinca com a vida de um animal por prazer e ova o sangue que escorre de animais inocentes com o som das palmas sob a tortura das bandarilhas é sádico. Não é arte nem valentia: é sadismo. É cultura, dizem os outros… é sadismo, digo-o eu. E exibem-no, alegoricamente, como um troféu.

Viva ao Homem de mente primitiva e que demonstra ter uma enorme incapacidade de partilhar este planeta com outras espécies.

De forma dogmática extremista relativamente a este tema, serve-me de válvula de escape saber que um dia, mais cedo ou mais tarde e de uma forma ou outra, as bandarilhas da vida, sejam enterradas naqueles que gostam e vibram com as touradas. Embora saiba que desejá-lo ardentemente transformar-me-ia exactamente como um deles, uns sádicos psicopatas, também sei que a vida tem um sentido de humor diabólico e as probabilidades são muitas. Talvez estes ferros da vida, que por vezes nos saúdam, doam tanto ou mais como dói aos touros.

E dói. Sem qualquer dúvida que dói…

Há bandarilhas de vários géneros, para todos os gostos e necessidades: “ferros compridos” com arpões até 4cm de comprimento e 2cm de largura e ferro até 140 cm; “ferros curtos” e “ferros de palmo” de 90cm e 35cm de comprimento respectivamente, enfeitados com papel de seda (que classe!) de várias cores e rematados com um ferro até 8 cm de comprimento com um ou dois arpões até 4cm de comprimento e 2cm de largura. Estas belas ferramentas penetram na pele e nos músculos e são retiradas do touro, já nos currais – longe dos olhares dos espectadores – pelo chamado “embolador” recorrendo a uma navalha: um corte aqui e outro ali, a carne do animal é cortada para que desta o arpão seja retirado.

Infelizmente, este show e circo de horrores a que lhe chamam de touradas, não se restringe apenas a esta descrição. A “tourada portuguesa” tem o pré e pós-evento, longe de olhares excitantes pois não faz parte do espectáculo: podem buscar as pipocas e coloquem-se de forma confortável pois, de forma resumida, a Plataforma Basta, explica os 10 passos de todo o ritual cruel aqui.

É cultura, dizem eles. É cultura…

E Paixão! Tal paixão assolapada que faz com que haja cavaleiros e grupos de forcados a pagarem para participarem em touradas pois esta demência em massa não gera dinheiro. Gera total paixão alienada.

Geram uma conduta totalmente deformada: desde aos praticantes – psicopatas -, aos que aplaudem – sádicos. Não sou eu que o digo e escrevo, mas sim evidências científicas: o que outrora era bravura do toureiro, hoje em dia não passa de acobardamento.

De acordo com o psiquiatra Guido Arturo Palomba, aparentemente “os psicopatas têm uma conduta deformada e este problema foi descrito em 1835 como insanidade moral; ao longo dos anos já foi chamado de psicopatia, sociopatia, condutopatia e transtorno de personalidade”.

Quão semelhante estas características são com as dos toureiros e aficcionados?

Felizmente, as praças de touros estão a ficar vazias. Sim! Cada vez mais, as touradas estão confinadas a uma ou duas regiões do país. Coloque-se o exemplo da Póvoa do Varzim quando demoliram a praça de touros.

As touradas estão a perder terreno em Portugal. A própria estimativa da IGAC (Inspeção Geral das Actividades Cultural) indica que as touradas perderam quase 50% do público entre 2008 e 2018 (698.142 em 2008 e 379.000 em 2018) e, ainda, atingiram o recorde mínimo de touradas realizadas em Portugal resumindo-se a “apenas” 173 touradas.

Ainda assim e mesmo com estes números motivadores para quem defende os touros e não o toureiro, nunca é demais falar, debater e discutir sobre o assunto para que o argumento de que “as touradas são cultura e tradição” deixem de ser válidos para justificar um massacre legal!

E para as crianças, enquanto a recomendação da ONU não for levada à sério: não tenham medo do touro. Tenham medo de quem vos leva às touradas.

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco"; outro publicado na Revista Pulp Fiction e um livro em criação. Prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e algum terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

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