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Tolerância

Não é questão velha. Épocas se passaram em que nem sequer fazia sentido elaborá-la, num desenrolar de conquistas, invasões, impérios, descobrimentos, hegemonias, supremacias, religiões, mais impérios – o etnocêntrico não se questiona a si próprio. A questão precisa de espaço para acontecer, sem que a soberba lhe feche a porta.

Nos tempos idos do Império Romano, quem não falava latim era denominado de bárbaro; no tempo dos Descobrimentos, portugueses e espanhóis tiveram de tomar medidas para se precaverem contra os costumes inaceitáveis dos indígenas, apressando-se a apagar traços de culturas sem as quais aqueles indivíduos se tornaram órfãos.

Claude Lévi-Strauss, entre (não suficientes) outros, alertou-nos para o perigo do posicionamento da superioridade radical de uma cultura em relação às outras, antes de a própria experiência e hodierna velocidade da comunicação nos vir mostrar o quão perigoso é. A História, também ela por vezes tão tendenciosa, acabou por expor vários exemplos carregados e dolorosos da constante etnocêntrica e parece que, aterrorizados com esses exemplos, nos começámos a dirigir para uma ética de maior respeito, para práticas de aceitação da diferença. Escrevo e sinto-me ridícula – não devia isto ser óbvio? A monotonia é perigosa. A diversidade enriquece.

Alertas vermelhos se acendem nos extremos de todos os ismos quando a tendência de uma cultura se desdobra em racismo, xenofobia, extermínio, isolamento. Sabemos isto, verdade? Aprendemos com a História, não? Não queremos mais versões de apartheids, genocídios, guetos.

Passa-se que a experiência também diz que sempre houve maus alunos e a professora História nem sempre lhes consegue semear a matéria nas mentes pouco dadas a aprender. Continuam a haver negativas e, se calhar, temos de nos conformar: não podemos todos querer ser bons alunos e exigir o mesmo aos baldas deste mundo. É assim?

Então, não nos havia alertado Lévi-Strauss para os perigos da ideia de superioridade de uns em relação aos outros? Ora, se uns querem estudar e ser bons alunos, que sejam, mas não venham agora obrigar os outros a ser também! Não?

Temos de ser tolerantes, respeitar a diferença, respeitar sobretudo quando ultrapassa os limites da nossa compreensão, admitindo que a sua posição e o seu contexto são outros. Os comportamentos devem ser analisados à luz da cultura onde emergem, admitindo que cada cultura se auto determina na escala axiológica em que se move. Assim, tudo depende da perspectiva, e como estas são mais que muitas, o caminho está aberto à tolerância sem limites.

Como começámos: não é uma velha questão, pelo contrário, é uma questão Moderna, nascida de um estado de coisas que permitiu pensar a Humanidade. É, agora, uma das questões mais prementes, cuja resposta parece fugir dos actos, ainda que alguns a consigam engalanar na teoria. Podemos ser tolerantes sem limite? Devemos tolerar tudo?

Se tolerarmos tudo, havemos de tolerar os intolerantes também. Se permitirmos tudo, permitimos que a nossa existência tolerante seja posta em causa. Se aceitarmos sem condição, acolhemos os que não aceitam de volta.

Há-de haver valores transculturais, que são essenciais ao exercício de se ser gente, direitos humanos que nos segurem, que sejam cola desta intrigante espécie, que se comporta como uma doença auto-imune, agredindo-se a si própria em cada flanco. Quem se arrisca a ser médico desta doença? Tratamento de choque ou uns paliativos sancionários? Quando é que se torna tarde de mais? A professora História contou-me que nos atrasámos já algumas vezes…. quem sabe se com a esperança de que o doente se curasse por si próprio…

A Carta só é Universal se todos a quiserem ler.

Havia um documento que a professora História, às vezes , citava: era de 1948 e tinha um título comprido: “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. A professora só não deixou claro na minha cabeça se era verdade ou uma história de encantar.

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