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CulturaLiteratura

The Casual Vacancy (Uma morte súbita), de J. K. Rowling

Há muito tempo que andava com vontade de ler este livro, pelas críticas que via e pela sinopse à qual não consegui resistir, e finalmente foi-me oferecido no Natal. E gostei mesmo muito, sem dúvida, mas só percebi o quanto gostei, quando o acabei.

Não é um livro fácil de começar, pelo menos não foi para mim. Existe uma morte, como é óbvio pelo título em português, que ocorre nas primeiras folhas do livro. Aqui, fiquei com a curiosidade no auge: se há algo a que eu não consigo resistir, é a uma morte, seja criminosa ou não. Porém, nas páginas seguintes fiquei com dúvidas sobre onde me levaria aquela leitura.

Este é um livro sobre histórias. Não damos de caras com coisas surpreendentes a cada página, como outros livros nos apresentam para nos prender, embora possa parecer quase irreal. Neste livro, apenas vamos encontrando histórias. Histórias comuns e não necessariamente muito interessantes à primeira vista: as dores pessoais, a rotina, os pensamentos, as personalidades. No entanto, pouco a pouco, embora tenha custado a começar, é um prazer continuar, porque percebemos que J. K. Rowling é absolutamenteRM_thecasualvacancy_1 maravilhosa na criação de pessoas (sim, pessoas em vez de personagens) e é uma excelente contadora de histórias, tanto a mostrar a sociedade com as suas várias nuances, como a retratar cada pessoa individualmente como ela é, com virtudes e com defeitos.

Virtudes e defeitos que têm todos, até Barry Fairbrother, a personagem que morreu e que será o elo de
ligação de todo o livro.

Geralmente, os autores vão construindo a personagem e depois “matam-na”, quando já temos alguma empatia e nos custa aceitar esse caminho. É uma boa maneira de chocar e mexer com as nossas emoções. Aqui, J. K. Rowling fez o oposto, com excelentes resultados na mesma: matou uma personagem que não conhecemos, mas que, ao longo da história, vamos apreciando e vamos sentindo, lentamente, o mesmo que sentiríamos, se nos tivesse sido apresentada para depois morrer. Vai-nos mostrando que foi uma tragédia e que precisávamos que continuasse vivo, entre as páginas do livro.

E foi uma tragédia porquê? Porque a vida de Barry Fairbrother, tal como acontece na vida real (embora tenhamos apenas uma leve noção disso), afecta várias pessoas. Mais do que aquelas que nos lembramos sempre – família, amigos. Afecta também conhecidos, a sua comunidade, as pessoas que ele tentava ajudar e, inclusive, inimigos, ou pessoas que apenas ouviram falar dele. Assim, consequentemente, a sua morte também vai afectar uma série de vidas e é isso que J. K. Rowling nos mostra, intencionalmente ou não. Mostra-nos como pode ser gigante uma morte que parece ser tão pequena em comparação com outras tragédias, como mexe com cada pessoa e como pode levar, sem querer, a consequências devastadoras, ou a descobertas fantásticas.

Um livro fantástico que me emocionou. Vale a pena pelas histórias de cada pessoa, vale a pena pelo retrato da sociedade – faz-nos pensar, de tão fiel – e vale a pena pela emoção que levamos, quando terminamos.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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