Crónicas

Talentos desperdiçados

Um dia destes, recordei um amigo de infância, colega da escola primária, que escrevia e desenhava maravilhosamente, e perguntei-me o que será feito dele, o que terá feito com os seus talentos. Esta palavra, talentos, projectou-me para uma das parábolas de Jesus Cristo sobre o tema. De forma simplista, resume-se no facto de um Senhor ter distribuído talentos entre os seus servos, 5 a um, 3 a outro e 1 ao terceiro, conforme as suas capacidades, dando-lhes instruções para os fazerem render. O que tinha 5, negociou e angariou outros 5, o de 3 angariou outros 3, mas o que tinha apenas um, zeloso da perda, guardou-o, escondido, não tendo gerado riqueza, devolvendo ao Senhor apenas o talento que dele recebera, pelo que foi recriminado.

Esta parábola continua muito actual. Quantos de nós temos talentos, mas pelas mais variadas razões não os utilizamos, em nosso proveito ou em proveito alheio? Quantos de nós vivemos uma vida rotineira e de mediocridade, avessos a mudanças, riscos, desafios, na salobra monotonia dos dias? Muitas vezes, como no caso desse meu amigo, vemos nas pessoas capacidades de ir mais além, mas vemos também serem desperdiçadas, numa apatia existencial. Outras vezes, as pessoas em questão até têm ambições, mas não se levantam do sofá para iniciar caminho até aos seus intentos. Cada pessoa é uma pessoa, mas acredito que estas questões se prendam com dois pontos essenciais: por um lado o conhecimento de si mesmo, por outro a resiliência de enfrentar as dificuldades inerentes ao percurso.

Cada um de nós, na modéstia relativa do nosso pensamento interior, deverá conhecer aquilo em que francamente é bom, e obviamente aquilo em que não excede a razoabilidade. Eu, por exemplo, escrevo qualquer coisa, mas não me peçam para cantar, pelo amor aos vossos ouvidos. Lembram-se daquele programa, o Ídolos, em que numa fase inicial se expunham os desastres, aquelas pessoas desorientadas de voz, para não dizer pior, que se achavam uma Maria Callas? Ridículo, no mínimo, sendo comum a interrogação: mas a família e os amigos não lhes dizem que bem podem esquecer o assunto?  As pessoas próximas podem ter um papel essencial nesta situação. Por um lado, sendo conhecedores dos méritos alheios, podem incentivar o uso dos mesmos, por outro, podem, de forma protectora, desviar pretensões irrealistas. Se eu quiser ser modelo de capa de revista, num acesso de amnésia, lembrem-me que ultrapasso largamente os 50kg e não passo do 1.71 metros, e poupem-me assim a infortúnios. Se bem que esse conselho tem muito que se lhe diga… quantas vezes a cegueira alheia proclamaria uma total inaptidão a pessoas que até se revelaram pródigas em determinada actividade? Daí que seja importante conhecer-mo-nos e em consequência, estarmos preparados para as dificuldades do caminho.

O que faz uma pessoa talentosa aninhar-se numa vida corriqueira? Manter os seus talentos guardados a sete-chaves, inclusos, muitas vezes escondidos das pessoas próximas?

Umas vezes, será por uma dificuldade de exposição, por pudor, ou mesmo falta de confiança pessoal. Outras vezes, será por receio da avaliação alheia. Ou eventualmente a não disponibilidade pessoal, perdida entre a vida de trabalho e a vida familiar, ou apoio a terceiros. Poderá ser também pela manutenção do refúgio próprio, sem demais. Há poucos dias conheci um senhor que escreve poesia, mas apenas a mulher tinha disso conhecimento, e o próprio filho só soube aos 25 anos, quando o pai o brindou com um apanhado de 25 poemas que foi construindo desde a infância. Outros parecem adiar continuamente os objectivos, como se não se sentissem preparados para, ou em alternativa, pensar que se concretizarão sem qualquer esforço, num desejo etéreo. Nesse caso é quase como se a não concretização garantisse um prolongamento da vida, adiando-se o momento do êxtase. É, por isso, indispensável a disponibilidade de cada um no uso dos talentos próprios.

Já me têm perguntado, quando edito um livro. Não sei, não faço ideia, não sei se quero, porque pelo menos para já sinto-me realizada com a minha página, os artigos, e a inter-relação que se gera com os leitores. Tenho noção que quem mo pergunta é, claramente, alguém que me reconhece qualidades para tal, é no fundo um elogio. Eu interpreto dessa forma, mas percebo que há quem leia essa pergunta como uma pressão alheia, de alguém que impõe o esperado, como se o determinismo presumisse num livro o fim óbvio e único do meu caminho. E isso fez-me questionar até que ponto eu, sendo bem-intencionada, posso estar a causar coerção nos objectivos alheios, quando lhes digam que deviam criar uma página na internet ou tentar cantar em bares, ou usar as suas habilidades de dinamização no voluntariado, ou de comunicação numa actividade? Estarei a dizer-lhes, sub-reptícia, mas criticamente, que estão a desperdiçar as suas qualidades? Estou a causar constrangimento, embora na minha ideia esteja apenas a apoiar quando vejo que o próprio não toma iniciativas? Estarei a forçar um colo não desejado, insistindo no uso pleno de capacidades alheias? Sei se são esses os seus intentos? Ou vejo nisso apenas aquilo que eu faria se fosse dotada dessas capacidades?

Respeitar o espaço alheio é também aceitar a decisão do outro da não utilização das suas mais-valias.

Embora todos nós percamos com isso. Muito mesmo.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em 4 Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

2 Comments

  1. “… um Senhor…” ? Qualquer um ou um específico?
    Ocorre-me uma pergunta que podes deixar retórica, se quiseres: Sentido o teu talento (o confortável prazer que é ler-te) acrescentado pela publicação de ontem, porquê Gestão? Então não devemos viver em função dos nossos maiores talentos? Gestão (actual) parece-me antítese de Escrevinhar (sent(ir)(pens)ar).

    1. Foram decisões tomadas com critérios pragmáticos de emprego, ao invés de seguir a paixão. Falta de visão, talvez, minha, que era muito nova, e dos que me cercavam, que não me souberam mostrar outros mundos. Mas gosto do que faço, e permite-me ter uma vida confortável e ainda fazer outras coisas que me alegram a alma.

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