+1 202 555 0180

Have a question, comment, or concern? Our dedicated team of experts is ready to hear and assist you. Reach us through our social media, phone, or live chat.

Succession – Quando a arte imita a vida, com perfeição

Alerta de spoilers! E se você não assistiu a Succession, talvez não entenda todas as referências feitas nesse texto, mas pode continuar mesmo assim.

Succession, série da HBO que teve seu episódio final transmitido em 28 de maio desse ano, é para mim, uma das melhores séries já feitas na história da televisão.

De forma resumida, a série conta a história de Logan Roy, o maior executivo de mídia dos Estados Unidos da América e de seus quatro filhos, três deles disputando para decidir quem será o sucessor quando o pai, já com 80 anos, morrer.

Apesar de Jesse Armstrong, criador da série, afirmar que ela não é baseada em nenhuma história real, é impossível não fazer um paralelo com a família Murdoch.

Rupert Murdoch é um australiano, naturalizado estado unidense, de 92 anos, dono de um gigante conglomerado de mídia, incluindo a News Corp e Fox Corporation nos Estados Unidos. Tem seis filhos e três deles estão em uma constante competição pela sucessão do negócio: Lachlan, James e Elizabeth (“coincidentemente” dois homens e uma mulher).

As similaridades entre as famílias Roy e Murdoch não param por aí, mas meu foco aqui não é esse. O que eu quero falar é sobre algumas semelhanças da série com a nossa vida real. A vida de pessoas que trabalham no mundo corporativo e que, com frequência, se deparam com as injustiças que tantos personagens encontraram ao lado dos Roy.

Todos os personagens de Succession são desprezíveis, é difícil sentir empatia por alguém. Contudo, no final, a gente percebe que os filhos de Logan Roy eram pessoas infelizes, que estavam o tempo todo buscando a aprovação do pai. E esse pai nunca conseguiu escolher um sucessor, não acreditava em seus filhos, mas por uma certa perversidade, queria sempre tê-los por perto. Por exemplo no começo da série, quando a Shiv tentou uma carreira diferente, ele logo a puxou de volta para a empresa.

Minha interpretação é a de que a disputa nunca foi sobre dinheiro, sempre foi sobre poder, e Logan Roy não conseguiu abrir mão de seu poder. Acabou morrendo com as calças abaixadas em um banheiro de avião. Morte essa que eu achei genial, ele lutou tanto para ter aquele império e morreu literalmente com as calças na mão.

Assim como acontece na vida real, os Roy também fizeram barbaridades e saíram impunes. Kendall matou uma pessoa! Houve suborno, acordo ilícitos com o governo, manipulação e uma série de crimes pelos quais eles nunca foram responsabilizados.

O episódio em que Kendall define o resultado das eleições é, para mim, um dos melhores da televisão. Eu morava nos Estados Unidos na época da eleição do Trump e eu pude ver em primeira mão a força que a imprensa tem no resultado. Como lá o voto é em papel, as pessoas podem mandar pelo correio e o prazo para votação é grande, o resultado não é exato, às vezes um candidato admite a derrota antes da contagem e a mídia pode sim interferir.

Além disso, de forma bastante proposital, não havia diversidade nenhuma na série. Todos que disputavam a direção da empresa eram homens, brancos, que cresceram no privilégio, ou no caso de Tom por exemplo, casaram-se com alguém da família.

Nunca houve uma discussão sobre o que aconteceria com os funcionários da empresa, nenhum deles estava preocupado com os empregados e nem mesmo com a direção da empresa, a preocupação sempre foi sobre quem teria o poder.

Daí podemos tirar a lição, bastante sensata, de que as empresas não são fiéis a seus funcionários, por isso não precisamos ser fiéis às empresas para as quais trabalhamos. O trabalho é uma troca de dinheiro por mão de obra, nada mais do que isso.

Outro tema latente foi a força do patriarcado no mundo corporativo, e como isso é prejudicial para homens e para mulheres. As duas personagens femininas principais, Shiv e Gerri, passaram a série sendo enganadas, manipuladas, iludidas e passadas para trás. Estava claro para mim, desde o princípio, que a Shiv nunca seria a sucessora, e ficou mais claro ainda quando ela anunciou que estava grávida e isso virou um motivo para ela não merecer a sucessão.

Já Roman, a única vez em que demonstrou fragilidade, ao chorar  no velório de seu pai, foi ridicularizado por todos, homens e mulheres. E Roman é um personagem magnifico, cheio de complexidades e que nunca conseguiu demonstrar quem era de verdade. Ele sofreu com o teto de vidro do patriarcado, tanto quanto as mulheres.

E preciso falar da falácia de que “é difícil trabalhar com mulheres porque elas são muito emocionais”. A série termina com Kendall dando a entender que irá se matar. Pouco antes ele diz para o irmão que se ele não for o CEO não irá sobreviver. Se existe uma reação mais emocional do que essa, eu desconheço.

E para encerrar, passei alguns dias com raiva do episódio final. Fiquei até decepcionada. Contudo, depois de refletir e pensar melhor (sim, Succession ocupou um grande espaço na minha mente), eu dei meu braço a torcer, mais uma vez, à genialidade do roteirista. A série não podia acabar diferente. Tom teria sido a escolha de Logan Roy, ele foi o único totalmente leal a ele. Aceitou ir para a prisão em seu lugar e até traiu a Shiv, sua esposa, em nome do executivo. E claro, o sensacional Greg, que conseguiu garantir seu emprego, mesmo tendo traído Tom, simplesmente porque Tom disse que teria feito o mesmo.

Claro que na vida real é triste ver tudo isso acontecendo, é uma sensação de impotência diante de tanta injustiça e desigualdade social, racial, de gênero. No entanto, a vida precisa ser mostrada na ficção também, não podemos lutar contra aquilo que não conhecemos.

Estou com um vazio no peito, esperando para ver se encontro alguma outra série tão perfeita como essa. Enquanto isso sigo minha luta por um mundo corporativo mais igualitário e justo, uma batalha longa e duradoura, mas com a certeza de que grandes mudanças acontecerão, já estão acontecendo aliás, mas isso fica para outro textão.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil
Share this article
Shareable URL
Prev Post

Jornais: O Papel do Papel

Next Post

O peso da simpatia

Comments 9
  1. Excelente! Não assisti a série, agora certamente será a próxima, em especial pelos pontos abordados.

    Gosto muito dessa análise da ficção com a realidade, afinal tudo vem de algum lugar.

    Parabéns pelo texto e na expectativa pelo próximo 😘

  2. Muito sagaz seu olhar de situações da série com fatos corriqueiros do mundo corporativo. “As empresas não são fiéis aos seus funcionários”, siga sempre sua ética; o patriarcado do mundo corporativo… quem perde? O mundo corporativo… diversidade e’ saudável em tudo. Enfim, parabéns pelo texto: leitura fácil, a tratar de temas delicados. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  3. Muito sagaz seu olhar de situações da série com fatos corriqueiros do mundo corporativo. “A fidelidade das empresas aos funcionários…., siga sempre sua ética; o patriarcado… quem perde? O mundo corporativo… diversidade e’ saudável em tudo. Enfim, parabéns pelo texto: leitura fácil, a tratar de temas delicados. 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  4. Ótimo texto!!! Comecei a ver a série mas depois parei! Agora fiquei curiosa de voltar a ver e entender tudo o que Dina fala!

  5. Bastante interessante sua abordagem sobre a série. Ainda não terminei todos os episódios, fiquei ainda mais curiosa.
    A mim, o que mais salta aos olhos, e ressaltado aqui no seu texto é a perversidade no relacionamento com os filhos. Duro ver isso!
    Parabéns pelo texto!

  6. A hei o artigo excelente! Não assisti a Série mas já me interessei após ler seu artigo!
    Parabéns!!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Read next

Sensorial – Parte I

É uma violência para o meu corpo. Dói, fere, ganha crosta. É uma ferida aberta, acreditem. Chamar-lhe outra…