“Ah, então afinal isto pode ser interessante e não apenas uma coisa que me vai fazer sentir errada e tontinha”.
Este foi um dos comentários que mais ouvi, quando Stutz começou a “fazer sensação” junto dos espectadores da Netflix.
Pois é! O trabalho de desenvolvimento não é uma “empreitada” assim tão feia, não. Pode ser dolorosa, por vezes, crua outras tantas, mas não feia. Pelo contrário, a vida é bonita e a psicoterapia e a relação terapêutica também podem ser, caros leitores! E porque Stutz e Jonah vêm lembrar-nos disso, eu venho lembrar-vos deles.
Stutz é um filme-documentário que recomendo, não como crítica de cinema, mas como psicoterapeuta e pessoa que ficou sensibilizada com a forma como o documentário expõe a experiência de psicoterapia numa perspectiva menos conservadora e ainda assim tão metódica.
Isto não significa que neste documentário esteja a (re-)invenção da roda. Pelo contrário, a magia de Stutz é mostrar precisamente aquilo que o processo terapêutico tem de único, acolhedor e que faz dele um motor de mudança e de bem-estar.
Logo nos primeiros minutos, somos preparados para o que não vamos encontrar: neutralidade, formalidade, opacidade, autoridade, perfeição. Para quem pensa sobre estes temas, e para quem considera procurar ajuda é certamente um respirar de alívio. Afinal, a psicoterapia não é aquilo que os filmes costumam mostrar, nem é representada pela pressão para a perfeição, ou a negação das limitações, com que algumas personalidades do “coaching” nos fazem sentir perfeitamente inaptos. Nada contra o coaching, quando este é deixado para quem sabe o que fazer dele.
Stutz revela como o psicoterapeuta é sensível ao sofrimento de quem o procura, e como o reconhecimento dessa dor o impele a dar esperança a essa pessoa e a mantê-la no caminho dinâmico da melhoria. Nada disso é neutro, como neutras não costumam ser as relações, nem mesmo as terapêuticas. Ao longo da hora e meia em que ficamos a conhecer as ferramentas terapêuticas e de autoajuda propostas pelo psicoterapeuta, encontramo-nos com dois seres humanos em torno da sua (sim, redundante) humanidade.
E de relação este filme fala muito, dando-nos pistas, de que as técnicas de trabalho são conhecimentos poderosos, que só podem sair vencedoras num contexto de amor e aceitação que é, neste caso, a relação terapêutica – o núcleo comum a todo e qualquer acontecimento em psicoterapia. Do mesmo modo, a relação terapêutica é o oxigénio deste filme e a ponte estabelecida com o espectador.
O protagonista mostra-nos como o carácter único da sua forma de trabalhar é a combinação do seu conhecimento científico e da sua própria experiência de vida, adaptada à pessoa que está diante de si. É assim que nos conduz por uma viagem duplamente única: é único o paciente, assim como é único o terapeuta com quem o primeiro tem “paciência”.
Este é um filme que pode tirar-nos “um peso de cima” porque nos permite apenas ser, em toda a nossa vulnerabilidade. O próprio psicoterapeuta, de quem antigamente se esperava a regularidade de um robot, é alguém vulnerável, que precisa de cuidados, que se confronta com a sua fragilidade. Ele, tal como Jonah, tem uma história familiar difícil, sofrimentos e questões pouco (ou nada) resolvidas que habitam as suas reflexões durante toda a vida. Serve assim de modelo a Jonah, e a todos nós, pela forma como avança e se desenvolve através dos desafios da sua própria vida.
Stutz e Jonah representam todos nós, e este convite a encarar as diferentes partes que nos compõem – as mais desenvolvidas, as mais tímidas, e a própria “sombra” – abre-nos um espaço de aceitação de nós mesmos, que nos invade através da amizade, da comoção, do humor e da gargalhada (que tão bem ficam num setting terapêutico real, ou feito de tela verde). Afinal, todos somos únicos, todos temos dificuldades, todos temos potencial.

O método Stutz deixa, desde os primeiros cinco minutos até ao momento final, uma mensagem de esperança e gratidão pelo nosso caminho de vida. Lembra-nos também de que a realidade só o é porque existem três aspetos dos quais é inseparável: a dor, a incerteza e a necessidade de trabalho incessante. Reconhecer em nós estes 3 aspetos não confirma que fomos malsucedidos ou que não fizemos o suficiente, apenas representa aquilo que mais genuinamente somos: humanos em contínuo desenvolvimento. E, com esta realização podemos considerar que estes três aspetos são também aquilo que nos dá a oportunidade de evoluir e de nos expandirmos.
Com o tom de autoajuda apenas necessário para nos gerar interesse, mas também com o tom técnico suficiente para contribuir para o desenvolvimento pessoal de quem assiste, Stutz ajuda-nos a ver a vulnerabilidade com menos drama e menos preconceito. do que, infelizmente, ainda estamos socialmente habituados.
Nota 1: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
Nota 2: Quem estiver interessado em saber mais pode continuar através do livro The Tools: 5 Tools to Help You Find Courage, Creativity, and Willpower–and Inspire You to Live Life in Forward Motion, de Phil Stutz e Barry Michels (2013).