+1 202 555 0180

Have a question, comment, or concern? Our dedicated team of experts is ready to hear and assist you. Reach us through our social media, phone, or live chat.

Solidariedade

O ano de 2022, onde estamos e já no seu terceiro mês, brindou-nos com mais uma surpresa, o que parece ser mote nos últimos tempos. Se em 2020, houve um volte face nas vidas vulgares e corriqueiras, obrigando a um recolhimento não voluntário, o tempo foi-se encarregando de mostrar novas variantes.

No início não era o verbo, mas sim o medo do desconhecido, um nome comum, mas que passou despercebido aos leigos. Uma espécie de Adamastor que vivia nas cabeças de muitos e que permitiu afastamentos em massa, ausência de contactos físicos, carência de abraços e de palavras de amor para os mais velhos, despersonalização de jovens e castração emocional de crianças, entre outros efeitos secundários de monta.

Surgem, então, os arautos da desgraça e do horror, o dedo apontado aos que antes se tinham como conhecidos ou amigos, ouvem-se palavras duras e impensadas, fruto de luzes apagadas em várias cabeças, saltam tantas vidas destruídas por perda de rendimentos que não se quer saber, enquanto outros, os que ficam confortáveis em casa, não precisam de labutar para sobreviver.

O mundo passa a ser virtual e, apesar de se verem desenhos colocados nas janelas e portas, com a frase: “vai ficar tudo bem”, o resultado foi o seu oposto, tudo mal. As relações humanas foram cortadas e suprimidas e, o mais grave, não fazendo grande mossa em muitos. O animal social deixou de o ser para voltar à caverna e enfiar a cabeça debaixo da cama? Perdeu a sua essência e regressou à selvajaria animalesca?

Não consigo imaginar que mundo será o que se avizinha se se continuar a obrigar as pessoas a ficarem fechadas em casa e a serem delatoras dos vizinhos e familiares. Não se pode usar a palavra democracia, quando se odeia o seu semelhante e tudo se faz para o maltratar. Onde ficou o respeito e a solidariedade? Que é feito do altruísmo? Parecem palavras vãs e destituídas de qualquer sentido. Contudo, há quem se sinta muito bem desta forma e até deseje que assim se mantenha. Não serei desse grupo.

O parágrafo acima foi escrito no ano passado. Este ano fomos brindados com outro receio, um medo mais real e que, mesmo estando longe, já afecta a todos: a guerra. A que já se trava desde 2020, com máscaras, álcool e outras graças sem ela, deixou de ter relevo pois agora há outro foco que precisa de atenção. Nestas coisas de guerras há sempre duas versões, dois lados da contenda, mas o povo toma logo partido por um dos lados, mesmo que não saiba o que possa estar na origem do mesmo.

Voltámos ao clássico ódio aos russos, quando são eles que também estão contra o conflito, pois a paz permite uma vivência mais suave. Contudo, a guerra é um negócio que precisa de ser arejado e os últimos anos foram de muita calma. A Rússia é longe, tal como a Ucrânia, mas esta fica mais próxima. Há quem tenha que sair de casa, sem saber se vai voltar, mas essa é a questão de todos os desafios, se há ou não retorno.

Portugal une-se, largando logo o medo anterior, o que criou ainda mais inimigos e desconfianças, para abrir as portas aos que precisam de refúgio. Estes são loiros, de olhos azuis, com qualificações superiores e trazem consigo os seus animais de estimação. A corrente é grande, tal como a disponibilidade que não houve para outros males que assolam o mundo. Afeganistão, Síria e tantos, são nomes ocos para muitos. O país cobre-se de azul e amarelo, bem como de girassóis, a flor nacional.

Interessante é recuar uns anos, quando foi a chegada do primeiro grupo destas pessoas, ucranianos, em busca de uma vida melhor. Nessa altura tinham o nome de imigrantes e a queda do muro de Berlim, tal como a fragmentação da União Soviética, forçou a marcha da humanidade para países com outro tipo de clima e formas diferentes de estar. O acolhimento não teve grandes simpatias e ouviam-se frases de nenhum incentivo, tais como, “estão a roubar os nossos postos de trabalho” ou ainda “são todas umas p****”.

Por estranho que pareça, os visados eram pessoas instruídas, detentoras de cursos superiores e que ficaram impedidos de os exercer no nosso território. Era comum haver médicos a trabalharem nas obras. Para eles o trabalho era honrado e deram o seu melhor. Alguns patrões abusaram, não lhes pagando o acordado e fazendo-lhes passar por calvários para se legalizarem. Também havia economistas a fazerem limpezas e não se envergonhavam de tal. Contudo, esta fase está esquecida. O umbigo é o mesmo, mas varia conforme a maré.

Não sei como será daqui para a frente. Há disponibilidade para receber quem foge, com milhares de postos de trabalho a serem anunciados, quando, para os nacionais, as respostas costumam ser de “habilitação a mais” ou “já está preenchido”. O certo é que precisamos de dar o nosso contributo para que a economia não morra e para podermos sobreviver de forma autónoma. Estarei errada?

Já nem falo das formas irracionais e surreais como os nacionais são tratados pelos serviços públicos, quando precisam de parar de vez. Anos e anos de descontos para o estado, vidas honestas e claras, mas que parecem não fazer qualquer sentido. Há sempre quem venha, de mão estendida e recebe tudo, sem quaisquer descontos efetuados ou que alguma vez ter dado o corpo ao manifesto. A verdade é que este é um país de hipócritas, que quer calar as vozes com estatísticas de ajudas que foram a zero euros, de prestações sociais com o mesmo valor e com reformas impossíveis de serem reais.

A movimentação de pessoas será uma constante. Os nossos também foram forçados a emigrar e certamente que gostaram de ser bem acolhidos nos países que os escolheram, ou que foram escolhidos. A força de trabalho não se esgota, mas não sejamos falsos nem gente de duas caras. Quem vem por bem e sabe como se labuta, que se chegue à frente e mostre que quer fazer. O mesmo se aplica aos nacionais que esperam, sentados, que tudo caia do céu.

Qualquer guerra é condenável e a História tem ficado esquecida. É lamentável que se pense assim. Os interesses pessoais ganham dianteira e o colectivo fica esquecido. Putin é sempre o mau da fita. Zelensky, que era um total desconhecido, ganha terreno. Em 2019, quando ganhou as eleições com uma larga maioria, foi contestado e humilhado. Palhaço, foi uma das várias palavras usadas. O vento mudou. Nestas coisas de políticos há que se ser cauteloso.

Já agora, sabem se o vosso vizinho precisa de alguma coisa que possa ser feita? Ajudar mais longe é bonito, mas o gesto deve começar às portas de casa, com os que estão junto a nós e necessitam de algo. Pode ser apenas uma pequena conversa, tão importante para quem é idoso e vive só, uma mera piada, uma pergunta ou um breve telefonema. Convém não esquecer o básico, aquilo que nos dá o nome, de seres humanos e que se chama humanidade.

Esta é a guerra que não para e nunca terá fim, a dos olhos fechados para o que está em redor de cada um. É mais fácil repetir o que se ouviu, ou o que é induzido pelos canais de televisão, que agora também têm novos heróis, os repórteres de guerra, pagos a peso de ouro, do que pensar e nem tomar qualquer partido. Infantil? Dois anos parados custaram muito caro às indústrias de armamento. Só os laboratórios ganharam e muitos bolsos ficaram cheios. Siga a vida que é urgente e ainda há muito para viajar!

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Slow Living – Viver Devagar

Next Post

Joana D’Arc – Uma mulher que ficou para a História

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Read next

Ser jovem em 2019

Nasci em 90 e fui adolescente na viragem do milénio. A minha geração sabe como era ser jovem, quando ainda não…

“I’m a Star”

Ela, de todos, foi a primeira a chegar. Veio calma e serena. Com duas tranças feitas na perfeição que ficavam…