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Revisitar Cacilhas

Talvez tenha sido por ser um sábado de bom tempo em Março. Ou até talvez por ser uma zona junto ao Tejo, onde ainda ecoam histórias e rumores que as marés trazem e levam, histórias de trabalhadores industriais e viúvas vestidas de preto, de noites solitárias à espera que os peixes mordam o isco. Cacilhas (ainda) é feita de pontões, de casas antigas e, à noite ou ao final da tarde, de luzes trémulas espelhadas naquelas águas calmas.

Apesar disso, não sei precisar a partir de quando, algo moderno começou a invadir Cacilhas. E isso resultou numa mistura interessante. Esta zona não está, de todo, vocacionada apenas para receber turistas, o que é um ponto muito positivo. Aqui a modernidade, chamemos-lhe  assim, está antes voltada para fazer sentir em casa quem lhe apeteça passar por ali um dia e comer num dos restaurantes e marisqueiras que se mostram como cantinhos com um encanto único e uma aura acolhedora e familiar. De forma sucinta, parece-me uma boa alternativa a quem quer escapar de vez em quando do centro da capital. Até porque, a partir de Lisboa, em poucas dezenas de minutos conseguimos lá chegar, seja de carro ou de barco. É só vencer o estigma de passar a ponte ou o síndrome da outra margem.

Creio que, no futuro, Cacilhas se vá ainda modernizar mais e, quem sabe, poderá vir a acolher outros espaços de entretenimento e lazer para além da variada oferta gastronómica que já povoa aquele lugar. Este ambiente singular e repleto de histórias e personagens, há de ser, de certo, terreno fértil, por exemplo, para as artes e cultura em geral.

Cacilhas, outrora nome de localidade para ilustrar piadas sobre lugares degradados ou referência a um sítio onde ninguém quereria ir, ficou-me na memória e no coração. Não é um lugar idílico e está longe de ser o maior pólo de vida cultural deste país, porém, é uma espécie de janela que nos oferece uma vista para um misto de futuro e passado e dá-nos um outro olhar sobre Lisboa, um olhar a partir do outro lado.

Para além disso, será sempre um sítio repleto de peculiaridades que, a cada visita, se renovam e deixam histórias para contar, seja pelas “gentes” dali, seja pela tradição que nunca chegou a apanhar o barco para se ir embora.

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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