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Sociedade

Quando os professores somos nós.

Tive a sorte de ter tido uma professora primária fora de série. Tenho noção que grande parte do meu sustentado desenvolvimento intelectual e emocional se deve a ela. Há 30 anos, o ensino primário era bastante mais intrusivo do que é hoje. Os professores eram parte integrante da dinâmica familiar. Os assuntos familiares eram partilhados com os professores e existia uma verdadeira relação de entreajuda entre a escola e a família. Pelo menos na minha escola primária funcionava assim e este funcionamento era benéfico para todos.

O papel da minha professora primária foi tão importante na minha vida que eu olhava para ela como se estivesse num pedestal, quase em jeito de figura etérea. Lembro-me de organizarmos um jantar de despedida no fim da quarta classe. Alunos, pais e professora inundaram o restaurante de presentes, desenhos, poemas e abraços em lágrimas. Tenho quase a certeza que foi a última vez que a vi, mas os seus ensinamentos estão em mim para toda a vida.

Voltei a encontrá-la nas redes sociais há uns anos. Corri a página dela para a relembrar, estava mais velha, já era avó e já tinha deixado o ensino. O sorriso continuava igual, a tez continuava muito branca e ainda era magra. Eu também já tinha 30 anos e pela primeira vez olhei para a minha professora primária como alguém igual a mim. Uma mulher de trabalho, com filhos (agora netos), com interesses e angústias, e com uma vida cheia de bons, e certamente menos bons, momentos. A verdade é que, apesar do papel fundamental que têm em qualquer sociedade, os professores são pessoas como nós.

Os confinamentos que vivemos no último ano e o encerramento das escolas passou para os pais a responsabilidade de, para além de educar, também ensinar. Os pais, comuns mortais que tantas vezes se desdobram entre diversas realidades, foram chamados a fazer recortes com sequências de cores, a fazer ditados e a ensinar a tabuada.

Os professores estavam à distância de um ecrã, mas os pais estavam lado a lado. Houve uma mistura de papéis e a noção que os professores não são infalíveis, mas, por outro lado, as funções que desempenham não estão ao alcance de qualquer um. Nesta dicotomia abstrata de heroísmo e normalidade, vivem os professores.

Quando somos crianças eles são o nosso leme, quando crescemos tornam-se pessoas iguais às outras e quando somos nós os professores, os professores recuperam a capa de super-herói e ao fim do dia deitam-se tão cansados como nós.

Rita Ramos

Escrevermos sobre nós próprios, no sentido de nos darmos a conhecer a quem nos lê, acaba sempre por ser ingrato. Somos um nome? Uma idade? Uma formação académica? Eu quero acreditar que somos tudo o que vivemos, que somos tudo o que nos rodeia e que absorvemos, que somos quem amamos, que somos os livros que lemos e as viagens que fazemos. Somos um conjunto de tudo e de nada. Quanto a mim, sou a Rita, tenho 37 anos, sou licenciada em Relações Internacionais, sou casada, sou filha e mãe, e as palavras têm sido a minha maior companhia ao longo da vida.

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