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Quando os donos da razão perdem tudo, até a razão

Uma alta concentração de ego manifesta-se quando alguém quer, a todo o custo, ser dono da razão, com atitudes egóicas que fazem de quem as assiste espectador do ridículo.

Tudo o que somos e fazemos deve implicar, acima de tudo, respeito pelo outro, coerência [entre o que é dito e o que é feito] e responsabilidade para assumirmos as consequências. E, de facto, por vezes, assiste-se a graves sinais de alarme, principalmente quando determinadas atitudes entram em campo, pela falta de noção do que se diz e do modo como as coisas são ditas, pelo aumento do tom de voz, pelo descontrolo e pela necessidade de vencer a todo o custo. No fundo, penso que se trata de duelos interiores mal resolvidos, que se manifestam através da necessidade de atenção e de projecção nos outros do próprio ego ferido.

Considero que somos todos um pouco egocêntricos. Como seres sociais que somos, precisamos de atenção e de uma certa razão. Faz parte, mas em doses moderadas. Porém, quando alguém precisa de se sobrepor, evidenciar, notabilizar perante os outros, é notória a sua estratégia de se aproveitar da própria parcela de baixa auto-estima para rapidamente se convencer a procurá-la fora de si. E, para isso, instiga-se a ganhar e, se necessário, a partir tudo, para confirmar o seu valor, como se de uma gratificação se tratasse. Movida por essa exaltação inconsciente, a pessoa egocêntrica tende a ser inflamável, e até tóxica, sempre que sente o seu território ameaçado. Não percebe, no entanto, que quanto mais dona da razão pretende ser, mais razão perde. E mais perde a noção do “ruído” dos seus actos e do ridículo a que o próprio ego a sujeitou. Acima de tudo, humilha-se perante si mesma.

Basta ser-se observador e silencioso espectador, sem qualquer tipo de complexo de superioridade, para se perceber que o ego gosta de se sentir isolado para poder, também isoladamente, ser o centro das atenções, ter tempo de antena e espaço para se afirmar e reforçar a sua posição. Na tentativa de enaltecer a sua “verdade absoluta”, a pessoa egocêntrica acha que ganha fazendo-se passar por vítima, que, em boa verdade, tem outro nome: arrogância. Arrogância, falta de respeito, por si mesma e pelos outros, e manifestação de fragilidade. Não tem mal nenhum mostrar fragilidade. O problema é quando esta se manifesta através do abuso de poder, da tentativa de manipulação e distorção da realidade.

Para mim, uma das vitórias desta vida é sabermos escolher as batalhas que valem a pena travar, aquelas que nos acrescentam algo, com sabedoria, deixando ir o que não interessa e valorizando o que nos torna pessoas melhores.

Aceitação e humildade. Estes, sim, são os grandes aliados da paz e da liberdade. Só assim se torna mais fácil reposicionarmos o nosso foco para o que na verdade importa: desfrutar dos pequenos presentes que o presente nos vai oferecendo. O resto é conversa.

Por vezes custa e dói desvincular-se de discussões. Mas quando dói nestas coisas, dói apenas no ego. O resto é libertação. E há coisa melhor do que acordar com a leveza da aceitação, do desapego e da liberdade? Com estes valores-base o ego não se mete, nem há ego que aguente.

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Manuela Gonçalves Pereira

Madeirense, casada e mãe de dois filhos, os seus amores-para-sempre. Residente em Coimbra e licenciada em Comunicação Social, inspira-se nas pessoas e em tudo o que a vida oferece. Enveredou pela comunicação das organizações, área em que actualmente exerce a sua actividade profissional. Ler {livros e o mundo} e escrever aqui e ali são alguns dos seus passatempos favoritos. Encara o sentido de humor como uma forma de desconstruir preconceitos. Lema de vida: em tudo há sempre uma oportunidade...

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