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Por que razão a Arte não pode ser grátis

“A Arte é uma das maiores manifestações humanas que temos em nós.
Porém, temos muito a tendência de lhe dar apenas um valor etéreo.
Quando é que vamos deixar de encarar a arte como algo que tem que ser grátis?
Porque é que a Arte não pode ser grátis?”

Perante este mote, desta vez, mais do que a minha opinião/visão, que procuro que seja sempre factual e longe da opinião das massas e do sensacionalismo jornalístico, resolvi contar com a opinião de uma pessoa que pertence efectivamente a esse mundo, ao mundo da arte, mais concretamente da sétima arte, com a certeza de que será indubitavelmente uma mais valia. Falo de Rúben Sevivas, um transmontano nascido em Chaves, em 1991.

Lídia Alves: Rúben, fala-nos um pouco de ti, de como nasceu esta paixão pelas artes cénicas:

Rúben Sevivas: Lídia, comecei a fazer teatro muito novo, despertei interesse pelas artes cénicas ainda em criança dado o meu à-vontade e à minha boa capacidade de comunicação. Com 13 anos comecei a fazer teatro mais regularmente, pois a minha escola tinha a disciplina de teatro como obrigatória no terceiro ciclo. E, mais tarde, abriu a Academia de Artes de Chaves, onde comecei a fazer musicais, sob a direção musical de Marcelo Almeida e da encenação de Cristina Nunes. O cinema apareceu no meu secundário como maneira de fuga até – um gay em Trás-os-Montes rodeado de tudo, menos de representação onde se identificasse; precisei de procurar essa identificação nos filmes, principalmente nos filmes estrangeiros. Na altura, não havia cinema em Chaves, tudo isto foi feito através de downloads ilegais.

Lídia Alves: Percebi que não se tratava de actividades extracurriculares, tiveste mesmo a oportunidade de estudar essas matérias

Rúben Sevivas: Sim, estudava artes no secundário, algo que foi definido em criança – não me via a estudar outra coisa! – e passava muito tempo a desenhar. No cinema, senti que poderia aliar as duas coisas que me fascinavam, o desenho (pintura) e o teatro. Mais tarde, ao estudar cinema, entendi que o cinema era isso e muito mais, mas foi esta a fusão que me fez enveredar pelo estudo da sétima arte.

Lídia Alves: Então e depois do secundário?

Rúben Sevivas: Depois de secundário, fui para a Universidade da Beira Interior, onde me licenciei em Cinema com a apresentação do meu projeto final e primeiro filme – Fôlego (2017).

Terminei o mestrado em Cinema em 2021, também pela Universidade da Beira Interior, de onde resultou o meu primeiro documentário, Direito à Memória (2019), premiado com os prémios de Melhor Documentário no YMOTION19 e no Leiria Film Fest (2020), bem como com a Menção Honrosa do Prémio PrimeirOlhar Cineclubes, nos Encontros de Cinema de Viana (2020).  O meu projeto final de mestrado, Sobrevoo (2021), recebeu críticas favoráveis, entre elas a de Rui Tendinha, no DN: “uma confissão pungente e com uma audácia humana a lembrar os home movies de Chantal Akerman”.

Paralelamente, construí uma carreira de ator e de produtor de teatro na minha cidade natal. Também cofundei, em 2018, uma produtora independente ligada à cultura, às artes e à região Transmontana, o coletivo Ay Filmes, um trio artístico em colaboração com João Araújo e Rita Lameira. 

Integrei, também, a equipa de programação do Cine Eco – Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, entre 2020 e 2021.

Lídia Alves: Acredito que esses prémios e essas críticas foram deveras importantes para continuares a desenvolver os teus projectos. Nunca mais paraste, não é verdade?

Rúben Sevivas: É verdade, Lídia, felizmente! O meu mais recente filme, Flor de Laranjeira (2023), estreou no aclamado FEST – NDNFF, em Espinho, no dia 24 de junho de 2023 e, logo de seguida, foi galardoado com o Prémio do Público para Melhor Curta-metragem no FESTin, em Lisboa.

Recentemente, ganhei a menção de Melhor Guião na 4° edição de Novos Argumentos organizados pelo Short/age com o guião de “Reco”, curta-metragem em fase de pré-produção.

Lídia Alves: Fabuloso, Rúben, estás de parabéns! Este foi um dos motivos que me levou a escolher-te para esta breve entrevista, precisamente para, dentro do que me for possível, ajudar na divulgação do que de bom por cá se faz e que, infelizmente, passa ao lado de tanta gente.

Voltando ao mote principal, Rúben, com toda esta tua experiência quer de um lado quer do outro das câmaras, o que tens a dizer sobre o facto da arte não poder ser de graça?

Rúben Sevivas: Infelizmente, a disparidade de realidades em Portugal é tanta que uma questão levanta imediatamente outra: quem tem acesso, geograficamente, à arte que se produz? E estamos aqui a falar de uma arte, na sua maioria, financiada com dinheiros públicos, mas que não chega à maioria da população, com ou sem vontade de pagar por ela.

 No meu mundo ideal, o acesso à arte seria grátis, tal como o seria à educação e ao conhecimento, bem como o acesso à saúde e à habitação. Mas eu não vivo no meu mundo ideal, estou inserido num modelo financeiro muito específico e não é por discordar dele que deixo de viver e de ter consciência da sua influência no meu quotidiano. Sendo assim, o acesso à arte tem de ser pago, tal como o artista tem de ser pago. A questão é simplista quando colocada do ponto de vista do acesso, pois há toda uma dimensão social, política e económica que é impossível de desassociarmos à feitura da arte – independentemente de esta ser elevada à transcendência no futuro. Há sempre o momento da sua execução, bem como o momento do seu acesso. Mas a segunda só existe depois da primeira, invariavelmente. 

Lídia Alves: Que comparação poderás fazer entre a realidade portuguesa e o que se passa no estrangeiro?

Rúben Sevivas: Lá fora, no que toca ao cinema, existe capital de risco e de investimento: os produtores, que são os detentores dos direitos dos filmes, correm esse risco, mas esperam vir a ter retorno. Em Portugal, não existe retorno… ou muito raramente. Sendo assim, um filme é feito já com toda a gente a ser pago, sem esse capital de risco em cima da mesa. Não sei se este modelo será distinto no futuro, mas gostaria de acreditar que sim. Vejo potencial no cinema português, mas temos de cortar com estas maneiras antigas de se fazer… acredito no investimento público, inseridos neste modelo que descrevi acima e não no meu mundo ideal, como catalisador de riqueza gerando autonomia às empresas produtoras de forma que possam produzir cada vez mais, sem depender exclusivamente de apoios públicos… mas também isto pode ser uma utopia!

Lídia Alves: E novos projectos, Rúben? Estás a trabalhar em quê neste momento?

Rúben Sevivas: Actualmente, frequento o doutoramento em Media Artes, mais uma vez, na Universidade da Beira Interior e estou a dar os meus primeiros passos como empresário e a abrir a minha própria empresa que não se foca apenas no cinema, mas em toda uma variedade de produtos audiovisuais, pois acredito fazer a diferença, principalmente em Chaves, e que as pessoas pagarão efetivamente pelo que irei produzir, seja arte ou algo mais comercial.

Este ano, 2024, apresentarei a curta-metragem “Adeus” no circuito de festivais de cinema.

Lídia Alves: Rúben, muito obrigada por teres aceite este meu convite e aproveito ainda a oportunidade para te desejar os maiores sucessos!

Rúben Sevivas: O que normalmente acontece quando se tem a oportunidade de se conversar com alguém interessante e interessado, é que se torna difícil compactar tanta e tão boa informação. Neste contexto, e no sentido de não deixar nada importante de lado, deixarei no final do artigo uns links que nos remetem para informações mais detalhadas sobre a actividade deste artista (actor/realizador), aproveitando a oportunidade para chamar a vossa atenção relativamente as novidades que ele tem na manga para este novo ano.

Links para o trabalho do Rúben Sevivas

http://instagram.com/rubensevivas

http://patreon.com/rubensevivas

https://shortfilmsforanewage.com/curta/reco/Last Goodbye_press kit_ENG.pdf

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do antigo acordo ortográfico.

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