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Perdoai, Senhor, aos que falam de perdão.

Todos nós já teremos passado por situações da nossa vida em que não agimos bem com os outros, ou em que os outros não o fizeram connosco. Destas acções, terão resultado sentimentos passivos, internos,  como  mágoas, dores, ressentimentos, ou mesmo activos,  como ira ou vingança, que pressupõem actuar sobre o outro, ou pelo menos disso ter vontade. Se nunca o sentimos, ou tivemos muita sorte, ou simplesmente não nos demos à vida, que as relações humanas são complexas e nem sempre o entendimento existe.

Pensava nisto um dia destes, enquanto ruminava um certo acontecimento. E ao mesmo tempo, passaram pelos meus olhos diversas publicações do Instagram em que se faz o elogio do perdão, como elemento libertador e pacificador das agruras humanas. Indo mais longe, diz-se que perdoar não é isentar o outro da culpa, ou  desconsiderar o dano, ou sequer dar continuação a um relacionamento que nos feriu. Diz-se ainda e sobretudo, que  perdão não é esquecer, mas tão só atingir o ponto em que determinada lembrança já não nos causa dor.

E é aqui que eu sinto que, ou não percebo muito bem o conceito que apregoam em toda a sua magnitude e magnanimidade, ou não sou evoluída espiritualmente quanto baste para o entender. Ouso até dizer que o perdão pode ser perverso. Espantados? Passo a explicar.

Há, quanto a mim, algumas incompatibilidades em tudo isto. Tendo em conta a definição comummente aceite de que o perdão não é esquecer, parece-me utópico esperar que, não esquecendo, o que é uma impossibilidade total, se aja sem reservas.

Imagine-se o caso de uma traição conjugal, por facilidade de exemplificação. Se A traiu B, este pode até desconsiderar, apelando a passados felizes e ao amor que sente, e ao facto de todos errarmos e outras considerações do mesmo tom. Contudo, nunca agirá com a mesma naturalidade de antes, simplesmente porque nada voltará a ser como antes, e ao menor indício de nova traição ou apenas um mal entendido, a situação volta a estar presente. Não se esqueceu, mas também é impossível agir sem reservas. Não é possível repor a situação, ainda que se ache que perdoou. E se se optou pela separação, também nada permaneceu como antes. A traição deixa marcas intensas.

Por outro lado, o perdão é usado para facilmente passar adiante, para terminar um ciclo de dor, numa tentativa de se voltar ao que era, o que como já vimos é irreal. É uma forma precipitada de se avançar, mantendo ou não o contacto, querendo minimizar o impacto do ocorrido, como se evitando sofrer com isso fosse uma forma de fazer de conta que nada aconteceu. Isto funciona quer  para o agressor quer para  o agredido. A urgência de mitigar a culpa pode convergir rapidamente num pedido de desculpa. Como se a dor incomportável de termos ferido aqueles que amamos se extinguisse com o pedido de perdão. Um pouco como: eu fiz a minha parte para voltarmos às boas. Agora a bola está do outro lado. E o outro pode querer igualmente libertar-se do assunto, e perdoa. Ou pensa que perdoa. Até que.

A dádiva do perdão surge envolta em grandiosidade moral, em fortaleza de espírito. Só as almas elevadas dispõem dessa capacidade. Os homens vulgares mesquinham os ressentimentos, cultivam o negrume. Só os fortes, perdoam, não é isso que dizem? E se houver  um aproveitamento imoral por parte do agredido?

O ofendido diz perdoar, e pode crer até nisso. No entanto, esta situação leva a que seja montada sobre o ofensor agora perdoado uma espécie de liberdade condicional. Por um lado, sabe de antemão que quem perdoou não esqueceu ( voltamos ao mesmo) e portanto estará em observação constante, em avaliação. Por outro lado, fica em dívida para com quem o perdoou, porque lhe foi dada uma 2ª hipótese, e não deverá voltar a decepcionar o outro. Isto, obviamente, em situações em que a continuidade do relacionamento ( conjugal ou outro) persiste, ficando clara a posição decisória de quem permitiu, com o perdão, que a ligação continuasse.

Mas, e se … nunca nos pediram perdão? É possível perdoar quem não demonstra qualquer mal-estar face ao praticado, ou quem não o verbaliza de forma expressa? Se perdoar alguém já é difícil, isto corresponde, quanto a mim,  à dificuldade maior. Diz-se que o perdão traz a paz. E a busca dessa paz pode ser intensa. Mais uma vez a minha mente descrente acidifica a pergunta: perdoo para ter paz? Para ter sossego espiritual? E não será isso menosprezo pelo ocorrido? Ou mais grave ainda,  não será isso apenas egoísmo? Quando se perdoa apenas para obter um fim e não porque é o que se sente?

Perdoem-me por ser assim incrédula.

Mas insisto que os sentimentos devem viver de honestidade.

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Comments 1
  1. Excelente, esta crónica !
    Expressou muito bem o seu sentir sobre este tema, ” o perdã ”
    Na verdade acho que é um tema complexo já que são inúmeras as situações e todos nós vivemos e sentimos de maneiras muito diversas. . . Penso que não é um tema muito linear. . .
    Acontece que já senti essa “libertação” ! Perdoei sem me pedirem perdão, verdade ! E, tudo voltou a ser como antes, sem qualquer ressentimento mas. . . Esse perdão não acontece assim sem mais nem menos, esse perdão acontece porque vemos no outro, “o agressor”, uma atitude que nos dá essa força para “perdoar”
    Não sei se me fiz compreender, não tenho esse dom da escrita fácil, não é muito fácil explicar este sentir. . .

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