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Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo

Pura poesia

Ouvi sobre prémios e troféus, mas ando distraída com a dança do manto de água e com a cintilação da luz sobre o espelho de prata. E em como estas linhas soam a cliché barato.

Se sentir o sol na pele é cliché, eu venho. Se o pescador sentado a reparar a rede é cliché, eu venho. Os gatos à espera do peixe, o fado a desembocar das arrecadações de madeira, a mesa que se põe por entre a confusão das vozes graves, das vozes altas, dos copos que se preparam para acolher o tinto. Cedo, muitas e insuficientes vezes, à tentação de intrometer o olhar porta dentro, observar de relance o rádio antigo na prateleira, a humildade acumulada em artefactos de pesca e numas cadeiras de plástico espalhadas ao acaso.

A noite que chega, com a Santa Padroeira florida, com o menino no colo, a rasgar caminho por entre a fé, os ateus e os agnósticos. Os projetores a iluminar a diversidade das gentes da terra e os barcos contornados de luz, mastros de bandeirinhas a acenar.

Entretanto, eclipsam-se a noite, os leds e varre-se a fé dali. Devolve-se a casa às aves, aos atletas, aos pescadores, aos espirituais, ecologistas, artistas e poetas. Engatilho as palavras nos dedos e disparo sobre as ervas secas que se oferecem ao lodo. O Mouchão assobia-me do outro lado do leito, com três árvores plantadas em jeito de obra de arte e uma estrutura ao abandono que “sei lá eu o que é”. Tiraram-me dali, do lado direito, as teias de pau e os avieiros coloridos. Tiraram dali, do lado direito, poesia xávega.

O bar atrás de mim, as chaminés ao longe, o estaleiro que nem avisto, a modernidade a competir com a tradição sem que lhe ganhe. E, não ganhando, disfarça-se com astúcia, como numa combinação chique de decoração moderna e apontamentos vintage.

Não hão-de tardar os flamingos a observar turistas e os turistas em barcos avieiros a espantarem-se com os flamingos, uns mais rosa outros menos, uns sentados em bancos de madeira corridos e os outros apoiados num galhinho de tom coral a petiscar crustáceos. Cedo chegará a chuva, mais ou menos generosa, a açoitar os trilhos salpicados de impermeáveis e pernas sujas de lama. A água em queda a limpar os espaços de crianças, churrascos, latidos de cães e passeios de domingo de manhã.

No Parque Linear Ribeirinho do Estuário do Tejo cabem a natureza e a evolução em comunhão perfeita, corpos e almas, barulho e silêncio, modernidade e tradição. A sensação de plenitude é envolvente e arrebatadora. Tudo isto, já ali, à beirinha da cidade de Lisboa.

Lara Barradas

Vivo com os pés na terra, a cabeça na lua. As palavras correm-me nas veias, pulsantes de emoções e ansiosas por se despenharem sobre uma folha branca. Tentam, desesperadamente, definir o indefinivel: eu.

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