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Para que serve a faculdade?

Quando entramos no ensino superior, muitas vezes, encontramos um sistema muito mais teórico do que pensávamos encontrar e questionamo-nos o que ganhamos ao entrar na faculdade. Para além de um canudo, que outras aprendizagens ganhamos na faculdade?

Embora possa parecer, exageradamente, por vezes complexa, extensa e umas quantas vezes aparentemente inútil, acredito que bem lá no fundo existe um fio condutor e que muitas, não todas, as aprendizagens teóricas irão servir de muito. Provavelmente, o modelo de ensino que utilizamos, aquele igual ao de sempre, aquele que quase foi dos nossos avôs, ande a limitar o interesse e bom desempenho dos alunos universitários e não só.

É ilusório pensar que a universidade forma para a vida adulta. Hoje pensasse em formar o profissional, em ter pessoas capazes de responder a esta louca cadeia produtiva. De uma forma fria, instantânea, impessoal, esqueceu-se a parte da formação moral, cívica e intelectual de cada um. Esqueceu-se que cada pessoa é individual e única. É visto como prioridade preparar para o mercado de trabalho, o considerado importante é a quantidade de informação que é depositada numa só pessoa, do que a qualidade da mesma, ou se esta é ou não apenas decorada e deixada a um canto do cérebro nunca mais encontrada.

Podemos considerar que a universidade vem carregada de limitações que não possibilitam que o aluno sinta que pode prosperar a nível intelectual. Por mais ideias, pressupostos, opiniões, que cada um possa ter, não têm como fazê-lo vincar ou notarem-se, pois sempre existem técnicas, teorias, ciências, ideias já formadas, explicadas, argumentadas e sem dúvida (aparentemente) dadas como certas e inultrapassáveis. Muitos consideram que a universidade apenas cria “copiadores”, não incentivando a criatividade individual”. Não será mesmo esta a questão?

Há muito tempo que se fala que o modelo de ensino precisa de uma revisão (praticável) profunda, toda a gente fala, debate, justifica, que este não é o caminho. Mesmo com a urgência na mudança de paradigma, porque continuamos exactamente no mesmo lugar?

Em 2013, Joaquim Azevedo, professor da Universidade Católica, doutorado em ciências da Educação e também investigador (sendo ideias deles parecem fazer mais sentido, estudou, tem mais bases para argumentar. As minhas, poderão ser as mesmas, mas estamos em patamares de, supostamente “conhecimento”, completamente distintos), afirmava que “o nosso modelo é do século XVIII e não está adaptado à realidade.”

Mudar o modelo escolar é arriscado, visto vivermos numa sociedade democrática, que acima de tudo tem pavor a mudança. Para um partido político poder vincar esta ideia, reformular ideias horários, disposição de horários, criar turmas e modelos de aprendizagem sem obedecer aos critérios usados desde sempre é um risco que poderá não se mostrar viável no sentido político.

Nessa altura Joaquim Azevedo falava ainda do método de ensino inovador (agora já não tento) com óptimos resultados em prática na Finlândia.

“É possível prepará-los para as provas ou para a vida. Nós escolhemos a segunda opção.”

Convém frisar que a Finlândia tem o sistema educacional considerado como sendo uns dos melhores do mundo. Com uns dos melhores resultados, com índices de desempenho mais altos do mundo, os alunos finlandeses são os que passam, por dia, menos tempo presos a estudar teorias e mais teorias.

Por curiosidade e por achar de tamanha relevância, pelos resultados obtidos, fui tentar saber mais sobre este método que me desperta interesse.

O primeiro ponto interessante, por mostrar que esta é uma sociedade bem diferente da nossa, por deixar transparecer o tão importante que é olhar para qualquer aluno e observá-los como tendo uma história, mas não deixando isso influenciar o resto.

Os professores não perguntam, nem tão pouco têm conhecimento do estatuto social de cada aluno ou qual a profissão dos pais. É proibido haver algum tipo de comparação entre os alunos, nenhum deles é considerado “bom” como também nenhum deles é considerado “mau”. Ninguém se especializa apenas numa determinada disciplina. As disciplinas que aqui conhecemos como teóricas, lá não são mais ou menos importantes, são iguais à educação motora ou artísticas.

Numa só sala de aula, cada aluno poderá estar a fazer um exercício distinto, pois cada aluno tem um acompanhamento individualizado, pensado para as suas habilidades. Pensado apenas para si. Se o aluno tem mais para dar é lhe oferecida essa oportunidade. Se por outro lado não consegue ou não se sente preparado para um exercício ou atividade, não há problema nenhum, volta atrás quantas vezes forem necessárias.

Aqui, em todos os níveis de ensino toda a informação é fornecida por igual. Existe um projeto, com metas demasiado especificas e os que não têm como acompanhar ficam para trás, sem oportunidade de tentar de outra forma.

Muitos alunos entram na universidade com a ideia que embora seja trabalhoso é possível, mas cada vez mais os números de desistências assustam porque quem não tem as características necessárias e a enorme capacidade de memorização não se sai muito bem.

As teorias das universidades não possibilitam o desenvolvimento do raciocínio lógico, não se parte de uma ideia para depois se procurar soluções próprias, não poderá existir uma argumentação individual e pessoal. Existem teorias de outros, argumentos de outros, ideias de outros, perguntas de outros. Quanto a ti? Decora e reponde o que está escrito e provado, sem ousar discordar.

Claro que em muitas situações, em diversas cadeiras existe uma ciência inalterável e sem ela nada faria sentido, no entanto, a forma que se explica tudo isso é a errada ou, a meu ver, pouco eficaz.

Considero o resultado, na maior parte das vezes, compensatório. Sentir que os anos de estudo deram os frutos que esperam é fantástico. No entanto, existem tantos génios no mundo sem canudo, pessoas que, por vezes, por falta dele, não conseguem voar mais alto.

Mesmo capazes serão sempre apenas pessoas sem canudo. Sempre com menos oportunidade de falar, de argumentar. Mesmo que haja argumentos, claro que não têm o mesmo eco. Não são comprovados por um historiador qualquer, por um filósofo, ou apenas é dito por alguém sem canudo… A ideia poderá ser a mesma, modifica apenas o estatuto de quem o explica.

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