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Os acenos do Sr. Domingos

O Sr. Domingos vive em Mafra. É reformado e tem já alguns anos de juventude. Nos dias em que a meteorologia o permite, numa estrada com moradias dos dois lados, senta-se numa cadeira à porta daquela em que vive, e acena a todos os carros que passam. Todos, sem excepção. 

Vi-o na véspera de Natal, com um grande casaco de malha, gorro e a sua bengala, na cadeira do costume, na sua missão. Várias vezes o vejo conversar com pessoas que lá param, talvez vizinhos, conhecidos, mas ainda assim acena a toda a gente que passa por si. 

A primeira vez que aconteceu comigo não percebi, assumi que fosse para o carro de trás. “Não, era mesmo para ti, acena de volta”, a família que cá mora corrigiu-me rápido. Contaram-me o que sabiam, mas não me chegou, portanto fui à procura de mais informação. Encontrei-a na versão online de uma publicação local. Do que apurei, o Sr. Domingos teve um AVC. Em plena pandemia, fazia a sua convalescença em confinamento, mas sentia que a falta de contacto humano não o deixava recuperar. Então foi buscar esse contacto onde conseguiu, sentado à porta de sua casa, vendo as pessoas a passar. As pessoas que o viam, começaram a acenar e ele acenava de volta. Gerou-se então um fenómeno, em que passar naquela estrada é sinónimo de cumprimentar o Sr. Domingos, com várias pessoas a dizer que se ele não está “o dia nem corre da mesma maneira”.

O Sr. Domingos é motorista reformado da Mafrense e, quando passa uma camioneta da mesma por ele, em vez de retribuir com um aceno, fá-lo com uma buzinadela. Alguns dos condutores habituais também buzinam, pedestres e ciclistas dão os bons dias e tardes. Aqueles metros de estrada tornam-se numa festa, por vezes bastante sonora.

Hoje em dia, não falho uma. Há um tempo, uma amiga passava lá férias comigo. Ao passarmos de carro já perto do sítio, percebi que não a tinha avisado do fenómeno. “Acena ao Sr Domingos!!!” – disse eu já em cima do local e a levantar a minha mão. “O quê?” – perguntou a pobre rapariga, apanhada de surpresa. “ACENA AO SR DOMINGOS!!!”. E ela assim fez, naquela câmara lenta de quem não está a perceber nada. Só depois tive tempo de a pôr ao corrente. Da vez seguinte já cumpriu o ritual com a mesma alegria de todos nós.

Há quem lhe chame o “Sr. do Adeus”. Não consigo, porque nunca vi ali um “Adeus”. É claramente um “Olá!”, talvez um “Boa viagem!”, “Por aqui de novo?” ou no máximo um “Até breve”. Nunca foi um “Adeus”.

O exemplo do Sr. Domingos enche-me de esperança. De algo tão simples como um senhor a acenar à porta de casa, cresceu todo um acontecimento de boa disposição e de algo que todos nós precisamos e que temos vindo a perder, principalmente desde a pandemia: conexão. Mesmo que seja com um estranho e durante uns segundos. Naquele momento que trocamos com o Sr. Domingos estamos a sorrir, e seguimos a sorrir durante mais alguns metros. Este senhor que procurava alegrar um pouco os seus dias, acabou a alegrar o dia de centenas de pessoas. Não tenho qualquer dúvida que um mundo com mais Srs. Domingos seria um mundo muito mais saudável.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.

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