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O sonho de Eufrásia

Chamava-se Eufrásia e carregava na sua alma todo o peso desse nome. Odiava-o. Gostaria de se chamar, talvez, Cassandra ou Natacha. Mas em homenagem a uma trisavó que ninguém conhecia – e que para ela não passava de um mito –, os pais tinha-lhe escolhido aquele nome. Eufrásia. E ela era obrigada a usá-lo, a dizê-lo, a escrevê-lo, a levá-lo consigo e a deixá-lo transformá-la na pessoa que ela nunca tinha querido ser.

Tinha dezasseis anos mas já tinha decidido que aos dezoito ia mudar de nome. Sabia que o nome também nos define, e é de conhecimento público que uma Eufrásia não é propriamente uma Vanessa, disso tinha ela a certeza! Já sabia que nunca estaria confortável naquele nome, que nunca o sentiria parte de si, que a castraria. Sim, sabia que a castraria. Ia mudar aos dezoito anos, assim que os fizesse. No próprio dia; seria a sua prenda de aniversário. Não queria dar um desgosto aos pais, mas era incapaz de viver com aquele nome mais tempo do que o legalmente obrigatório. Ainda não sabia que nome ia escolher; um nome para o resto da sua vida era muito importante! Mas entusiasmava-se quando pensava nisso, ficava feliz e impaciente.

Ela sabia que o nome Eufrásia não lhe ia dar o futuro que ela queria. A maioria das Eufrásias que ela conhecia trabalhavam no campo, cavavam batatas e plantavam grelos, matavam coelhos para o almoço dos maridos. Não que ela tivesse alguma coisa contra: a sua própria mãe fazia o mesmo, e ela às vezes até ajudava. Também conhecia uma Eufrásia freira. Ela não era uma rapariga de campo, e muito menos tinha queda para a religião.

Ela gostaria era de ir para a grande cidade e queria um nome digno da sua profissão de sonho. Quando via na televisão um combate, de boxe ou de WWE, chorava de emoção. Era aquilo que ela queria fazer para o resto da vida. Aquilo. Era aquilo! Quando via as outras, na televisão, já se imaginava também lá, a viver o sonho dela: a passear pelo ringue, numa roupa provocadora, e a sorrir enquanto mostrava os placards que anunciam o próximo round. Cruzava as mãos, apertava os dedos e tremia de emoção. Ela seria a próxima rapariga dos rounds, tinha a certeza disso! Ou isso, ou esteticista de unhas de gel, que era o seu Plano B.

Mas não com aquele nome, isso é que não!

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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