O Salvador da Pátria

No auge da pandemia, da crise financeira e social, vemo-nos envolvidos em mais uma crise – a  política. No momento em que escrevo este artigo, estamos a pouco mais de duas semanas de irmos novamente a votos para a eleição do novo governo. A palco apresentam-se as mesmas personagens que figuraram nos últimos anos: os extremistas, os centristas e o Salvador da Pátria. É assim que se apresenta André Ventura, o Salvador da Pátria. Barba de três dias, gravata descontraída, tom de voz exacerbado e discurso provocador. Genial do ponto de vista da preparação.

André Ventura surge em cada debate com uma agenda bem definida. Munido de manchetes populistas e de meias verdades, mostra-se sempre pronto a disparar ofensas e gritos por cima dos seus opositores, procurando ao máximo desconcertar e lançar, a plenos pulmões, as frases feitas com que se popularizou. Usa a seu favor o pouco tempo de debate, obrigando o seu opositor a enveredar por uma estratégia defensiva e pouco clara ou fundamentada, tal é o número de temas/assuntos que procura lançar a cada abordagem.

O Partido Chega surge nestas Eleições Legislativas novamente com a proposta de um novo “Regime Democrático”, desta vez ressuscitando o lema “Deus, Pátria, Família e Trabalho”, numa espécie de nostalgia pela doutrina que marcou o Antigo Regime do Estado Novo. Esta “Direita de Direita” apela ao voto através de lugares comuns perigosos e anti-democráticos, que têm como foco os “portugueses-de-bem”. Explora complexos problemas sociais através de uma abordagem simplista, que encontra nas minorias étnicas, na comunidade LGBTQ+, na crise migratória, no RSI e na corrupção os grandes culpados do estado da nação.

André Ventura, o rosto e alma deste Partido Chega, surge-nos como o tipo comum: casado, crente em Deus, com formação superior e um passado político num dos partidos com responsabilidade governativa – o PSD, que se cansou das injustiças dos meandros sociais e políticos, fundando um partido reformador. André Ventura tem um discurso eloquente e acessível ao português comum, numa espécie de política de altercações de trânsito ou da fila do pão – diz as “verdades” que os políticos têm que ouvir, dá voz ao povo e faz justiça por todos aqueles que lutam diariamente por um futuro melhor e vêem os subsidiodependentes viver à grande, à custa do trabalho dos outros. Descreve-se como a voz anti-sistema e fala para os que estão desiludidos e revoltados com as governações anteriores, pelos sucessivos casos de corrupção, estagnação económica e social.
É aqui que mora o perigo. 

Os discursos populistas e de ódio nos quais o Partido Chega se integra, fazem uso abusivo das dores, fragilidades e emoções de cada cidadão na propagação de falsidades e meias-verdades. Usam a insatisfação e as questões sociais mais polémicas para o apelo ao voto e à mobilização do povo na luta contra as instituições democráticas. Face a esta estratégia, torna-se imperativo desconstruir este tipo de discurso e de pensamento, tendo a clara noção de que a generalização não é representativa da realidade da nossa sociedade, além de que a história recente da Europa e de Portugal nos mostram onde leva este tipo de discurso, que vê a educação sob o prisma da “tranquilidade, autoridade, ordem e respeito”, tal como o que significa a implementação de um novo regime. 

O Partido Chega apresenta-se nesta campanha eleitoral como a solução para acabar com a corrupção e com os subsidiodependentes, pelos “portugueses-de-bem” e pelos valores da família. Ataca direita e esquerda. No entanto, as soluções que apresenta são desprovidas de qualquer elemento diferenciador ou de futuro, não tendo nenhum argumento ou solução que efetivamente resolva as questões que ataca. Mostra-se muito forte a destruir, mas incapaz de construir.

André Ventura e o Partido Chega são eles próprios fruto do sistema que atacam. São fruto do deslumbramento da comunicação social tradicional e das redes sociais; da desilusão de trabalhadores que vêm as suas perspectivas económicas e sociais estagnadas; da revolta dos empregadores – os patrões como a extrema dos sindicatos lhes chama, pela extensa quantidade de obrigações, deveres e impostos que têm a cargo. 

O voto em André Ventura e no Partido Chega não é voto de revolta. É voto de perigo, utopia e de desastre social e político, basta ver os casos internacionais em que as novas gerações de extrema direita chegaram ao poder e o que daí originou, caso de Bolsonaro e Trump, por exemplo.

Nenhuma extrema – direita ou esquerda – é solução. São perigosos caminhos, que beneficiam das nossas fragilidades e se alimentam de lugares-comuns, explorando-os emotivamente, sem qualquer solução para proteger a vida ou melhorar a economia. São forças perigosamente eficazes a destruir os mais elementares valores da democracia!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico
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Comments 1
  1. Qualquer voto no fulano do chega será sempre um voto de ofensa àquilo que foi conquistado há quarenta e sete anos atrás. Nunca advogarei qualquer pretensão de governar o país, através de ideais extremos em que, nas entrelinhas é possível ler-se: ditadura…, Hitler…, Mussolini…, Franco…, etc. Mas sejamos assertivos: populismo e meias verdades já se tornaram características assíduas do nosso panorama político, ainda o Andrézinho andava no liceu a instigar os coleguinhas para votarem nele na eleição para delegado de turma.
    Os problemas sociais mais complexos são por norma, aqueles que muitos sabem que existem, mas preferem ignora-los porque são muito difíceis de tratar, dentro do politicamente correto.
    Pois eu que cresci e vivo num desses complexos problemas sociais, em forma de estrutura habitacional, vi outra realidade que muitos desconhecem e acham que são falsos estigmas. Nessa outra realidade de que falo , existem sim subsidiodependentes que vivem à grande e vão à recolha solidária de alimentos de Mercedes, ou então depositar o cheque do RSI ao volante do seu Bmw, etc. E essa maioria de subsidiodependentes são exatamente dessa minoria étnica que, não querendo generalizar ( acredito que haja exceções), se recusa simplesmente a inserir-se na sociedade, preferindo viver, desrespeitando as regras da igualdade social. Poderia enumerar muitos desses desrespeitos, mas já não tenho paciência.
    O mediatismo e protagonismo que dão ao sujeito André Ventura , é exatamente o que ele pretende , e é muito fácil resolver esse problema, é só não lhe dar crédito e muito menos, votos. E não vale a pena doirar a pílula, porque somos sim um país de muita corrupção, maior parte dela anda de mãos dadas com aqueles que nos governam.

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