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O que mata, ama com a mesma intensidade

O obvio ao escrever sobre AMORES PERROS é logo reverenciá-lo quase que unanimemente pela forma como seu realizador Alejandro Gonzalez Iñarritu, concebeu o filme. Mexicano que estreio em 2000 no grande ecrã, faz com que nós cinéfilos o destacamos AMORES PERROS e coloquemos na estante dos filmes geniais. Pois ao costurar três histórias de forma não linear, três histórias essas que podemos ver como um espelho estilhaçado no meio de uma rua movimentada, onde cada fragmento de rosto que por ali passou deixou impresso em um caco do vidro sua vida. Um modo outro de dar vida as narrativas com as quais nos acostumamos e até prevemos antecipatoriamente os atos.

Todavia, essa seria a maneira mais óbvia de falar de AMORES PERROS, que eu prefiro manter o título em seu original, talvez e só talvez aceitando sua tradução em outra língua de origem latina: francês. Já que o título em português/br quebra a mágica contida nas entrelinhas do texto. – Um simples título tem poder de mudar pontos de vistas, quando se é leitor ou espectador de uma história -.  E o mesmo título no português/eu, apesar da literalidade, deixa a quem todo o potencial da história. Perde o efeito da pluralidade da similaridade entre o personagem mais constante no filme: os cães e as escolhas de seus congêneres: ‘os homens’.

Embora, eu como guionista, creio que seja redutor falar aqui apenas de Iñaritu, ou de como as histórias que aparentemente nunca se cruzariam se não fosse o fatídico acidente e suas saídas como realizador para dragar o espectador para o filme. Tenho, por obrigação, decência, companheirismo e principalmente por tê-lo conhecido enquanto estudante de guião (o que nós, no Brasil, chamamos roteiro) de falar desse senhor que deu uma perspectiva completamente diferente ao ato de escrever imagem. Tenho de falar de Guillermo Arriga. Pois para que a maestria de Alejandro ecloda esta invisível sensibilidade da escrita de Arriga.

Que usou essas palavras em nosso único encontro (perdoem-me se já não as recordo em espanhol e parafraseio seu cerne: “Roteiro qualquer um faz. Vamos ao Nepal, há alguém que cria um roteiro, mas uma história uma história só escritores, vocês não escrevem roteiros, vocês escrevem história”).

Para qualquer estudante que esta ali e ouve e ainda esta a consumir e aprender a fórmula do bolo de como fazer cinema isso é a lufada de ar puro necessária e indescritível para continuar.

Saindo a digressão de falar desse pequeno encontro pueril, voltamos ao texto, ou melhor, ao filme, Arriga é o Perro, é Cofí, é Richie, são os cães de Sicário uma presença invisível enquanto o realizador Iñaritu esta sob os holofotes. (Nossa predileção industrial cinematográfica de ascender alguém ao estrelato esquecendo que ouve uma outra mente que pode ter pensado em conjunto, que pode ter estado no mesmo espaço de acção) no entanto aos olhos de nós meros espectadores é apenas invisível e lembramos devido aos dentes metálicos da industria do seu Realizador.

Para além do fazer cinematográfico temos um guia silencioso e no caso desse filme um PERRO/Arriaga.

O filme tem três arcos, três histórias que se interligam como disse mais acima por causa de um acidente, escolhemos as tensões e nomes pelo personagens, mas ao rever o filme (não uma, nem duas e não para escrever esse texto)calhou-me gostar da estrutura narrativa e perceber como cada elemento é introduzindo na história, comecei a congeminar escrever sobre o oficio solitário e invisível do roteirista/guionista, e passei a discordar das cartelas, não são para mim as apresentadas na montagem original, fazem mais sentido elas se transmutarem em: COFI, RICHIE, EL CHIVO.

Sendo o fio condutor de todos esses encontros COFI, que nos torna cúmplices e espectadores reféns dos acontecimentos vindouros pós sua escapada do portão de casa. É no silencioso estar desse cão que podemos traçar as dinâmicas dos personagens que nos vão sendo apresentados, a mesma docilidade e a mesma bestialidade que compõe o ser humano. Que do mesmo modo que mata, deita-se ao lado daqueles que confia para os afagos. Já Richie compõem a beleza de vitrine como sua dona Valéria, modelo, cobiçada, não cabe a um ser desse um cão que não espelhe as suas expectativas, pedigree, caro, tratamentos específicos, adestramento: PERFEIÇÃO. Valéria é perfeita e a perfeição tem medo, tem pavor de perder o controle de não ser mais bela.

E por fim EL CHIVO, este não é um cão é um homem sem nome, sem passado que cata lixo e é o chefe de uma matilha de cães que segue pela cidade. Por ter essa alcunha o igualamos aos seus amigos canídeos, invisível, da rua, vadio, as vezes alimentado outras, não. Mas sem nome, sem passado ou futuro e se teve passado e se terá futuro dependerá do desenrolar dos acontecimentos.

Em AMORES PERROS, a sensação que temos é que o AMOR fica em segundo plano visto que temos um grau de violência, assassinatos, e outras nuances que sublimamos o sentimento e fica mais em segundo plano, no entanto, ele ocupa uma centralidade tão fulcral na narrativa que seja por sua presença ou por sua ausência trazemos para nossa vivência de espectadores essas mesmas insuficiências e eclosões. A pesada ausência do AMOR implica numa pesada necessidade de preencher tais espaços com a REJEIÇÃO de um amor juvenil, com o descontrole do não saber ser mais do que uma modelo de OUTDOOR e o confronto da sua própria ANIMALIDADE em reflexo com o aquilo que acolhe irracionalmente só sabe fazer: MATAR.

AMORES PERROS é síntese de quando retornamos com os sentimentos mais abissais que carregamos devemos ter coragem de contemplar o mesmo abismo sem se esquivar da fragmentação do contexto atual de viver.

Nota: Este artigo foi escrito seguindo as regras do Acordo Ortográfico do Brasil

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