O que é um milagre?

Todas as religiões nasceram de um espanto diante da vida.

Antes dos livros sagrados e dos templos, o ser humano já se curvava diante do que não compreendia. Um relâmpago que riscava o céu, uma criança que nascia, uma cura inesperada, a chegada da chuva depois da seca — tudo podia ser sinal. Assim começou o milagre: não como prova, mas como deslumbramento.

O milagre está na base de quase todas as crenças. Para os cristãos, é a manifestação de Deus no mundo — os gestos de Jesus que desafiaram a morte e a dor. Para os judeus, é a travessia do Mar Vermelho e o maná que cai do céu. No Islamismo, o próprio Alcorão é o milagre supremo, revelado em palavras humanas, mas de origem divina.

Entre os hindus, o milagre está na presença do sagrado em tudo: nos deuses que se multiplicam, nas curas que vêm da meditação, na própria ordem do universo. No budismo, os milagres são ensinamentos — não tanto sobre poder, mas sobre consciência.
Nas tradições africanas e indígenas, o milagre é parte da vida comum: o rio que volta a correr, a caça que aparece, o espírito que responde.

Mudam os nomes, as histórias e as divindades, mas a essência é a mesma: o milagre é o instante em que o invisível toca o visível, em que algo ou alguém se torna canal de uma força maior. Talvez por isso todas as culturas guardem essa noção — porque o milagre é uma linguagem anterior às religiões, uma tentativa de compreender o que ultrapassa o nosso alcance.

Mas há também uma ciência do milagre — ou, pelo menos, um desejo humano de compreendê-lo. A ciência não nega o espanto; tenta traduzi-lo. Durante séculos, o que chamávamos de milagre era apenas o desconhecido.

Hoje sabemos explicar eclipses, germes, curas e voos. O que antes parecia intervenção divina tornou-se processo natural ou resultado do engenho humano. E, ainda assim, mesmo a ciência mais avançada guarda um resto de silêncio diante do que não sabe explicar: a coincidência improvável, o acaso que salva, a força interior que desafia o diagnóstico.

Há médicos que falam de “remissões espontâneas”, físicos que investigam a improbabilidade do universo, psicólogos que descrevem transformações que não cabem em teorias. Tudo isso, de algum modo, é o território do milagre — o espaço entre o que já sabemos e o que ainda não compreendemos.

Talvez a ciência de um milagre seja justamente essa: a consciência de que a vida não cabe inteira nas nossas fórmulas.

O milagre, então, não é apenas o que acontece fora de nós, mas o que acontece em nós quando o inexplicável se apresenta. É um estado de percepção.

Quando alguém volta a acreditar depois de perder a fé, quando alguém sobrevive ao que parecia impossível, quando uma palavra, dita no momento certo, muda o rumo de uma vida — há ali algo que ultrapassa a lógica, mesmo sem negá-la.

Talvez o verdadeiro milagre não seja a suspensão das leis da natureza, mas o despertar da nossa capacidade de nos maravilharmos.

A fé e a ciência, nesse ponto, se encontram: ambas nascem do desejo de compreender o mistério. A primeira se ajoelha diante dele; a segunda se aproxima com instrumentos e perguntas. E é nesse movimento — entre o sagrado e o racional — que o milagre continua a acontecer, discreto, teimoso, essencial.

Porque, no fundo, acreditar em milagres não é fugir da razão. É apenas aceitar que a vida é maior do que tudo o que conseguimos provar.

O milagre é o nome que damos ao impossível quando ele nos visita — e nos obriga a recomeçar o espanto.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.

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