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Contos

O amor

Quando os dias passaram a ser mais quentes, percebi finalmente o que era o amor.

Nessa altura, arrepiei-me até às pernas como se os dias ainda fossem frios. Ainda agora, ao pensar nisso, me arrepiei. Mas agora pode ser do frio porque hoje está frio. Não sei, estou baralhado. O amor baralha-me. A mãe também se baralha com o amor: diz “te amo”, mas o professor ensinou-me que se diz “amo-te”. A mãe fala poucas vezes comigo, mas quando a ouvi falar sobre o amor, explicou que o coração demora mais tempo a entender do que a cabeça. Eu não entendo nada do que isso quer dizer. Já pensei muito e não entendo. Faz-me doer a cabeça e desisto.

A mãe também se arrepia. Foi o que eu ouvi, sem querer, numa noite em que passei em frente à porta do quarto dela, depois de ter ido urinar à rua, que é onde fica a nossa sanita. Eu não tinha sono e, pelos vistos, a mãe e a outra pessoa também não. A mãe arrepia-se quando lhe beijam as nádegas. Foi isso que eu ouvi a mãe dizer. E também deve doer ao mesmo tempo, porque depois a mãe começou a fazer uns “ais”. Eu não sei se me arrepio ou se choro com beijos nas nádegas porque nunca me beijaram as nádegas. Nem as nádegas nem outra parte do corpo. Nunca ninguém me beijou. E se dói, então não quero beijos nenhuns. Não sei quem era a outra pessoa, porque entram várias pessoas diferentes cá em casa que arrepiam a mãe durante a noite, mas sei que tem de cortar os pintelhos. Ouvi a mãe dizer que a engasgam. Não sei o que são pintelhos, mas acho que devem ser como as unhas porque a mãe ralha comigo quando eu as corto com os dentes. Diz que me posso engasgar. E depois pega no corta-unhas e corta-as à bruta. Portanto, deve ser uma coisa parecida e a mãe vai acabar por cortar os pintelhos da outra pessoa à bruta também. A Joana diz que a mãe, às vezes, não tem maneiras bonitas.

A mãe nunca janta. Prefere ir arrepiar-se todas as noites. Se não fosse a Joana, eu jantava sempre sozinho. E também não a vejo almoçar. Levanta-se todos os dias quando já são horas do lanche. A Joana é a única que costuma falar comigo e que me faz companhia. Está sempre comigo, fazemos tudo juntos. Até mesmo quando vou trabalhar. Uma vez, a mãe falou com um senhor que a costuma vir arrepiar, para que ele me desse trabalho. Desde que a faca da cozinha que a mãe tinha na mão acertou no peito do pai sem querer, que falta um homem cá em casa para trazer dinheiro. A vida está difícil e precisamos de comer. O pai era um homem distraído. Sempre foi, e, naquele dia, caiu duas vezes para cima da faca da mãe, enquanto falavam muito alto. Estragou-se o refogado e o resto da nossa vida. Eu não quero ser assim distraído como o pai quando for adulto. E quero ser um homem menos bêbado também.

O pai comia e bebia muito. Devia ser por isso que tinha aquela barriga. A mãe dizia todos os dias que ele só queria gastar o dinheiro em putas e vinho verde. O pai gostava muito de putas. Eu sei isso porque ele e o tio estavam sempre a dizer que as putas eram bem boas e que, quando eu tivesse idade, ia comê-las com eles. Eu nunca comi putas, não sei se sabem bem ou não, mas acho que prefiro a sopa da mãe. O vinho verde até não é mau, já provei às escondidas.

A mãe pensa que eu vou trabalhar todos os dias, mas há dias em que fujo para a escola. Prefiro escrever em vez de ir trabalhar para a oficina. Eu gosto de escrever. A Joana diz que eu escrevo bem. E o professor também. Uma vez, escrevi um poema para a mãe mas nem nessa noite ela jantou comigo. A Joana acha que a mãe não está muito certa da cabeça. Deve ser dos arrepios.

Quando falo da Joana, ninguém sabe quem é. Os meninos lá da escola dizem que ela não existe porque nunca a viram. Chamam-me palerma, acham que não digo coisa com coisa. Não sei bem o que isso quer dizer mas penso que até deve ser engraçado porque depois eles riem-se muito. Eu também nunca vi a Joana. Mas a voz dela deixa-me mais sossegado e eu não quero saber.

O professor gosta daquilo que eu escrevo. Às vezes, não me deixa ir ao recreio só para me ver a escrever mais um bocadinho. Um dia, enquanto lia um poema meu, o professor pegou na minha mão e meteu-a dentro das suas calças. Suava dentro das cuecas e estava inchado. Devia ser do calor. Estava um dia muito quente. Depois, mexeu-me no pescoço e veio-me um arrepio, fiquei com pele de galinha. Explicou-me que era amor. O amor faz arrepiar. E o calor faz suar e inchar. Ouço a mãe a dizer que a escola não serve para nada mas, a mim, ensina-me as coisas importantes da vida.

Durante muito tempo, pensei que o amor era a Joana. Acho que ela tem andado triste e zangada por eu me arrepiar com o professor, pois nunca mais falou comigo. Queria muito fazer as pazes e explicar-lhe que, afinal, só podemos ser amigos, mas que está tudo bem na mesma. E é por isso que agora estou a escrever-lhe um poema para ver se ela volta.

Manuel Jorge

Gosta de massa de peixe, do Benfica e de livros. Não forçosamente por esta ordem. Descobriu a escrita apenas aos 38 anos, mas ainda assim bem a tempo de conseguir desprestigiar esta arte. Acha, também por isso, que tudo lhe surge demasiado tarde e que nada na sua vida é precoce, tirando a ejaculação.

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