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História

Minotauro – quando um deprimido rumina

Grega, romana ou outra cena qualquer – Mitologia. Saber e não mais esquecer… infelizmente para si.

Ano y (pronuncia-se gama e é III ou 3, dependendo de quem apanhar o meu diário e estiver a ler)

Dia o’ (pronuncia-se omicron e é LXX ou 70, dependendo de quem apanhar o meu diário e estiver a ler)

Querido diário:

Acabou-se mais um dia, está calor na ilha e já comi. Hoje foi mulher. Não era velha nem nova. Estava em boa forma e deu luta. Ouvi-a do lado de fora a gritar “Ai, não! Por favor, não me sacrifiquem que ainda tenho tanto para fazer… aquela pilha de roupa toda para dobrar. Coitadinha da minha mãezinha!” Mas não havia nada a fazer, tinham-na escolhido a dedo.

Ontem foi homem. Ah, grande bruto, corajoso até à porta e depois cá dentro choramingava baixinho e emaranhou pelas paredes a ver se havia uma saída que alguém ainda não tivesse descoberto!

I pity the fool! Isto está aqui um labirinto muito bem feitinho e à prova de fuga. Posso garantir que não se sai daqui. Zeus bem sabe o quanto tentei ao longo destes 3 anos!

Continuo muito deprimido. O papá pode ser muito cruel, quando quer (coitado também tem razões para isso) mas não posso negar que tenta que não me falte nada. Ainda no outro dia pedi que passasse por aqui um psicólogo para ver se me ajudava a lidar com esta coisa da clausura, mas a porcaria do Tales de Mileto só queria falar sobre a teoria que tem de que tudo no Mundo tem origem na água e blá blá blá! E eu a querer falar do paizinho e da badalhoca da minha mãe! O pai percebeu mal: eu queria um psicólogo e ele mandou-me um filósofo.

O que eu não dava por uma chaise longue e alguém que me ouvisse. Acho que já passei pelas fases todas:

Negação – foi logo no dia que me apresentaram o arquiteto Dédalo.

“Anda aqui ver a minha obra mais recente. Vais amar. Tudo em branco, linhas retas. Até te passas, uma cena incrível! Estou superorgulhoso.” E eu feito animal, tanso, tanso, lá fui à frente. Ouvi a porta a fechar. Andei, andei e quando percebi que estava a falar sozinho virei-me para trás e o cabrão não estava lá! Só ouvi do lado de fora dos muros altos: “Escuta, ó Minotauro, não é nada contra ti. Foi o teu pai quem mandou!”

Não! O paizinho não faria isso! Eu não estou fechado. Isto deve ser um teste, tipo Wipeout. Onde começa o percurso com as bolas vermelhas? Onde?!

Raiva – quando dei cabo dos cascos e #odi os cornos contra as paredes.

Marrei, marrei, corri com força e espetei-me contra as paredes tantas vezes. Esta fase durou pouco e doeu muito.

Negociação – quando percebi que a raiva não mudava os factos.

Foi logo a seguir a ter marrado tanto. A dor física traz paz interior: tenho que dar o braço a torcer ao masoquismo. À força de tanto espetar com os cornos contra a parede literal e metafórica percebi que nada daquilo ia fazer com que a situação se invertesse. Prometi a mim mesmo assumir que sou uma besta e passar a comer melhor. Vou passar a mastigar mais e a ruminar menos.

Depressão – é onde acho que me encontro. Aí e no meio de um labirinto.

Ando a registar os sintomas todos: cansaço extremo, muita tristeza e choro fácil. Ando cornibaixo, silencioso, emocionalmente frágil e durmo menos. Já o apetite, esse não me falta graças aos deuses! A todos menos aos que despertaram na minha mãe, Pasífae, aquela tara de se enrolar com o touro branco. Era sexy admito, mas transpirava selvageria e o touro era outro animal como ela. A porca. Só para punirem o papá por ele achar que era mais poderoso que aquela cambada sentada lá no Olimpo! Seria assim tão difícil resistir ao calor entrefolhos? A verdade é que ela não resistiu e o papá ficou todo furioso quando eu nasci. Sim! Chamá-lo-ei de “papá” até ao fim dos meus dias! Sou filho de Minos, o grandioso rei de Creta. Eu sinto, cá dentro, que se ele me desse uma hipótese eu conseguia provar-lhe o meu amor e devoção… snif

Aceitação – não sei se lá chego…tenho esperança…

E esta esperança tem um nome: Teseu. Esteve aqui à porta hoje de manhã. Pelo que me disse é príncipe. Filho do rei Egeu. Está cá de férias e pelos vistos já conheceu a minha maninha Ariadne. Senti que deve ter rolado um clima entre eles. Será que vou ganhar um cunhado? Era incrível ser convidado para a boda! Não sei como se vão desenrolar as coisas entre nós, mas ouvi-o falar sobre vir cá amanhã mostrar-me um novelo todo espetacular cheio de glitter que a mana lhe deu. Nunca vi nada assim. Estou ansioso, nem sei se consigo dormir hoje…

Minotauro – a vítima, a besta, o entusiasta de tricô encurralado no labirinto da vida, ou o epítome do velho ditado “podemos escolher os amigos, mas a família, não”!

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Mónica Santos

Em miúda gostava de inventar, agora escrevo; colava as vistinhas nos intervalos para devorar publicidade, agora sou copywriter; lia em voz alta na escola, agora faço locuções, destaquei-me na praxe quando pediram que dissertasse sobre "Pistões e panelas de pressão" e com isso ganhei rodadas; um dos empregos que tive, consegui-o com um texto sobre flatulência, e era autobiográfico...sou locutora, narradora, produtora de rádio e pagam-me para escrever. Gosto muito de ser mercenária e dos desafios que me arremessam. Lutei contra o Acordo Ortográfico mas agora damo-nos muito bem. Quis experimentar a liberdade de brincar com a escrita e encontrei no Repórter Sombra o perfeito parque de diversões: aberto todo o ano e sem torniquete à entrada....ah, e tenho os bolsos cheios de fichas!

3 Comentários

  1. Genial!!! A mitologia grega contada da forma mais romântica 😂
    Fiquei fã!!! Nasceu a comédia grega ! Muito bom!!!

    1. Muito obrigada, Hugo!
      Nada que não esteja relatado nos compêndios de História…mas assim, não para esquecer, pois não?
      Para trás deixei Aquiles e Medusa. O próximo?…está no segredo dos Deuses…

  2. De nada! Não creio que nos compêndios da história conste esta agradável eloquência, que nos prende a um texto , com um sorriso nos lábios. Calíope, estará orgulhosa ! Boas escritas !

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