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Memento Mori

O misticismo na arte contemporânea portuguesa

Quero desde já ressalvar que não sou critica de arte, o meu conhecimento de história de arte é basal, mas senti que fazia sentido terminar o ano, este ano tão tumultuoso no geral e caótico no panorama artístico, com este artigo. Não me vou demorar em lamentos, mas, sim, destacar o trabalho de dois artistas que tiveram um impacto em mim e partilhar convosco, talvez faça algum sentido para vocês.

"Punk you!" 2020, Ivo Alexandre
“Punk You!” 2020, Ivo Alexandre

Ao longo deste ano muitos de nós, que trabalhavam directa ou indirectamente no campo das artes, assistimos a um período ainda mais duro que o habitual. Os artistas freelancer, já habituados a ter de se reinventar, foram encostados à parede: os músicos, bailarinos e os actores ficaram sem palco, os artistas plásticos sem exposições, os cineastas sem salas. O público passou para a plataforma online – sem entradas, sem apoios, sem receitas, sem aplausos. Como espectadora online e amiga de uns quantos artistas, sei bem o quão difícil está a ser este ano.

Os trabalhos destes dois artistas acompanharam-me numa demanda pessoal. Vou apresentá-los e quero justificar a escolha destes dois – existem muitos mais, mas não é meu intuito prolongar-me.

 

O misticismo na arte – Memento Mori

Micaela Morgado

Micaela Morgado, também conhecia por Miky é ilustradora, tatuadora, uma artista plástica em ascensão. Nascida em 1995 (shit, i’m getting old AF), natural de Santarém, terminou o curso de Artes Plásticas em 2018 na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. O seu trabalho artístico expande-se por variadas vertentes, entre eles a pintura, ilustração, gravura, desenho, tatuagem e a colagem. Tem-se envolvido em exposições individuais e colectivas, das quais se destacam a sua participação no Festival FOLIO, em Óbidos, a exposição Em Folha! realizada no Centro Cultural de Cascais, participação na Bienal de Arte Jovem de Vila Verde e na exposição internacional Herbarium I em Atenas.

Micaela Morgado
Micaela Morgado
Micaela Morgado
Micaela Morgado

Conheci o trabalho da Miky ainda enquanto estudante, e o trabalho dela chamou-me a atenção – ratos, caveiras, cobras, traças, mulheres, seres antropozoomorficos ou híbridos, símbolos mitológicos, combinados de forma desconcertante e poderosa. Uma miúda muito discreta que luta em todas as frentes como artista freelancer. Deixou a sua marca nas Caldas da Rainha e vai deixar no Porto, onde reside. Podem encontrá-la pessoalmente no Espaço Birra ou podem espreitar o trabalho dela no Facebook, Instagram ou no seu site.

Ivo Alexandre

Sob o signo da Liberdade nasce Ivo Alexandre em Lisboa, 1974. Estudou Pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes, dedicando-se às Artes Plásticas em geral. Durante vários anos construiu um vasto curriculum como aderecista, cenógrafo, técnico de efeitos especiais e visuais em inúmeras séries, novelas e variados programas de entretenimento em televisão. Trabalhou para teatro, cinema e publicidade, contando já com um dos seus trabalhos premiado na Bienal de Veneza, com o filme Quem és Tu?… do realizador João Botelho. A sua paixão sempre foi a pintura, área que se dedica em exclusivo desde 2014.

"Auto retrato" 2002, Ivo Alexandre
“Auto Retrato” 2002, Ivo Alexandre
"Vincent Van Gogh" 2012, Ivo Alexandre
“Vincent Van Gogh” 2012, Ivo Alexandre

É necessária muita audácia para se decidir viver exclusivamente da pintura, sobretudo quando se conhece bastante bem o meio. Após ter passado por várias áreas das artes plásticas sentiu, a certa altura, a necessidade de se virar para dentro, mostrando-se em bruto na tela – desistiu da estabilidade por amor à pintura.
A primeira vez que tive contacto com o trabalho do Ivo não o compreendi, mas senti um impacto. Talvez fosse isso que me levou a tentar descodificar os símbolos e a encontrar a beleza neles. Já observei o trabalho dele inúmeras vezes e capto sempre algo novo, um lado sombra necessária para ver a luz. Com uma imensa versatilidade, já apresentou o seu trabalho em Espanha, França, Brasil e em inúmeras ocasiões em Portugal. Pode-se julgar que um artista lançado não encontra mais desafios, mas a vida artística é, por si só, um desafio. Em 2020 Ivo não expôs, contudo iniciou uma nova colecção que mudou um pouco o paradigma da temática – o misticismo continua lá, basta olhar com atenção. É ver para crer – espiam o trabalho do Ivo no Facebook e no seu site.

"Auto Retrato" 2018, Ivo Alexandre
“Auto Retrato” 2018, Ivo Alexandre

Escolhi o trabalho destes dois artistas pois foram os que me marcaram mais este ano. A Miky por estar em início de carreira e o Ivo pela sua enorme adaptabilidade de estilos e técnicas. Ambos trabalham a mesma temática, ambos freelancers, ambos na luta. Ninguém me paga para escrever nem sobre eles nem sobre nada, faço-o porque já vou tarde – desejo que tanto o trabalho deles como o trabalho de qualquer artista seja reconhecido pelo seu valor e que os artistas possam ter o reconhecimento devido quando o devem ter. Memento Mori – lembra-te que és mortal. Eles também o são.

Daniela Reis

Nasce em '86 um dos seres mais inconformados do planeta. A menina 'anti', com problemas de autoridade e de sociabilidade, esgueira-se à norma como um lagarto basilisco-comum (curiosamente também conhecido por jesus christ lizard) e não o faz nem por caprichoso ou gozo, fá-lo por um qualquer problema digno de análise psiquiátrica. Posto isto nasce 'La Sauvage', a menina-mulher Mowgli para vosso deleite.

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