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Crónicas

Luís

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O Luís tinha a caixa dos parafusos avariada, mas todos gostavam dele. Vivia num mundo cheio de seres fantásticos e onde tudo se resolvia com facilidade. Talvez por ser a única rapariga com quem ele falava, a nossa relação era mais próxima. Não me recordo de alguma única vez que tenhamos estado em desacordo. Se tal tivesse acontecido, a sua capacidade de dar a volta por cima, que era extraordinária, teria resolvido tudo.

Gostava de fazer relatos de jogos de futebol, imaginários, como é óbvio, em que o Benfica ganhava sempre. Uma vez decidiu acompanhar-me à Feira do Livro. Os pavilhões ainda eram amarelos, mas mesmo que fossem de outra cor qualquer, para ele era indiferente, porque só existiam duas: o vermelho do Benfica e o verde do Sporting. Quando estava a ver um livro, comecei a ouvir um burburinho. Era ele a relatar um jogo. Perguntavam-lhe quem jogava. Benfica! Contra quem? Sporting! Quem ganha? O Benfica por 0 a 0. E sentia-se o homem mais feliz do mundo por o seu clube estar a ganhar.

A diferença de idade que tínhamos, penso que nunca soube a sua verdadeira idade, era um homem-menino, quando eu era gaiata, permitia que eu cuidasse dele e ele de mim. Quando saía de casa para ir para a escola, ele perguntava sempre se eu queria boleia. Eu aceitava sempre. Então ele sentava-me na sua mota imaginária e levava-me com muito cuidado. Como tudo era simples naquela época! Ele ficava feliz, eu ia para a escola e a vida fluía naturalmente.

Claro que os miúdos são maus, é-lhes inato, como se sabe. Gozavam com ele, chamavam-lhe atrasado mental e doido e o Luís, cheio de alegria por se darem ao trabalho de lhe dirigir palavra, ria-se, mostrando uma boca estranha e muita baba a cair. No seu entender eram todos queridos e gostavam dele. Passado uns tempos, os rapazes do grupo acabaram por o aceitar e era, então, mais um gaiato que se juntava no banco do jardim a contar disparates. Não sabia o que era o mal e talvez esse seja o segredo para a tal da felicidade.

Os da rua, que não deixavam de ser malandros, eram os seus anjos e não admitiam que os de fora tivessem a ousadia de o provocar ou insultar. É a raiz da amizade que mostra a fibra de cada um. O Luís era o mais velho, como se sabia, mas a sua alma era a mais pura de todas. Nós íamos avançando e ele ficou o eterno menino que me esperava à porta da escola. Umas vezes era na sua mota, outras na bicicleta e, mais tarde, muito satisfeito, no seu Fiat 127. Todas máquinas imaginárias, mas eram o seu orgulho de progressão.

Hoje sinto saudades dele, da sua simplicidade e do seu modo de viver a vida. Claro que crescemos e cada um seguiu a sua vida. Eu deixei a escola e fui trabalhar e ele ficou tão desarranjado daquela mioleira que já não podia andar sozinho. Ter deixado de nos ver, de forma amiúde, foi um rude golpe para ele. Não conseguia entender que a infância agora era toda dele e que a outra fase, a adolescência, já se tinha esgotado.

Foi internado numa casa que o tratou como merecia. A mãe, tão sofrida, já não tinha capacidade nem forças para o acompanhar. Nunca o fui ver. Fui uma reles traidora. Sinto-me culpada. Todos conseguiram aceitar que o Luís era diferente. Não éramos de criticar. Eu sempre o tive em alta estima. Para mim foi sempre uma espécie de anjo da guarda. Ele tinha uma chama que ardia com cor forte. A nossa ainda andava à procura de cor.

Vendo bem não seria tudo tão fácil se só existisse o Benfica e o Sporting e as únicas cores do mundo fossem o vermelho e o verde? Na verdade, o Luís era um filósofo, mas faltou-nos maturidade para o saber ler e interpretar.

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Margarida Vale
A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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