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CulturaLiteratura

London Blues – Anthony Frewin

Certo dia, estava eu a passar por um daqueles stands que vendem livros nas estações de metro, quando vi no alto de uma pilha de livros, posto com algum destaque, um pequeno paperback amarelado, com um título de letras negras e gordas que dizia London Blues. O título que a muitos podia não dizer nada, a mim fez-me entrar imediatamente no stand do vendedor de livros para averiguar melhor tal artefacto. A combinação de London com Blues pôs-me a pensar sobre o que tratava aquele livro. Londres é uma cidade pela qual tenho grande afinidade. E blues, enquanto estilo musical que aprecio bastante e também enquanto palavra de múltiplos significados históricos, sociais e literários, foi a cereja no topo bolo.

Uma etiqueta de papel colada na capa indicava 3,50€, um preço aceitável para um paperback antigo e usado. Depois de abrir o livro para ver o estado das páginas, pus-me a ler o que dizia a contracapa. “The chance discovery of a thirty-year-old blue movie leads back to the film’s maker, Tim Purdon, and the London of the late 1950s and early 1960s.” Só esta primeira revelação me fez decidir que iria levar o livro comigo. Qualquer obra que me fale das décadas de 50 e 60 em Londres vai, à partida, interessar-me. Mas o que raio era um “blue movie” e quem era Tim Purdon? O resto do texto na contracapa esclareceu-me essas dúvidas. “Purdom was a pioneer of the black-and-white British porno film and a figure on the periphery of the Profumo sex scandal. He directed nine films… but who was directing him and what was their hidden agenda? And where is Tim now?

Felizmente que, hoje em dia, temos sempre à mão telemóveis que nos permitem fazer pesquisas rápidas num poço gigante de informação. Então, em poucos minutos, fiquei a perceber que este livro mistura ficção com realidade. Tim Purdom é uma personagem, mas o caso Profumo realmente aconteceu. Para os que, como eu na altura, desconhecem os contornos deste caso, diga-se, resumidamente, que foi um escândalo político, ocorrido em 1961 em Inglaterra, que teve origem no affair de John Profumo, nessa altura Secretário de Estado de Guerra, com Christine Keeler, uma modelo de dezanove anos de idade.

Na minha cabeça, comecei a tentar tecer uma intriga narrativa que ligasse todas essas informações ao título que me tanto me fascinou. A internet em nada ajudou a desvendar previamente o enredo daquele livro, pois tudo o que aparecia como resultado das minhas pesquisas pouco mais me dizia do que o que estava escrito na contracapa. A partir daí, só me perguntava como seria possível misturar a indústria dos filmes pornográficos a preto e branco nos anos 50 e 60 e um escândalo político-sexual inglês. A resposta era óbvia, só lendo, da primeira à última palavra.

Ora, não querendo, de todo, sabotar o incrível enredo deste livro, sinto que é necessário deixar aqui um esboço do que se passa ao longo daquelas páginas.

A história começa com um narrador sobre o qual quase nada sabemos, não se lhe conhece o nome nem outras informações pessoais, apenas se sabe que vai ser ele a dar-nos os primeiros dados e impressões sobre Tim Purdom. Este narrador descobre Tim através de um blue movie que surge misteriosamente a interromper um filme (Get Carter, de Mike Hodges) gravado numa cassete alugada. Ou seja, por um acaso, esse narrador decide investigar a vida de Purdom, o qual surge indicado como realizador do tal blue movie.

A investigação sobre a vida de Purdom leva-nos a umas quantas páginas de relatos de amigos e conhecidos de Tim, os quais relatam-nos as poucas ou muitas memórias que têm dele. Ora, esta primeira parte passa-se vários anos depois da ação principal. Recorrendo a simples cálculos, esta parte do livro deve passar-se, no limite, por volta de 1980, a julgar pela indicação da contracapa de que o blue movie descoberto tem trinta anos.

Porém, a ação principal, o âmago da história, é a vida de Purdom contada pelo próprio, na primeira pessoa. Ao longo dessa parte central e fulcral no livro, acompanhamos os dilemas morais e existenciais desse personagem, ficando o leitor a saber como Tim entrou para o submundo da indústria pornográfica em Londres nas décadas de 50 e 60 e qual foi o desfecho da entrada nessa realidade quase-paralela. E também, claro, de que forma o caso Profumo afetou a vida de Purdom e a sociedade inglesa da altura.

Opinião:

Pelo que até aqui relatei, mostra-se difícil esconder o meu entusiasmo com este oásis literário, sendo até que fiquei desiludido por, depois de alguma pesquisa, perceber que este foi um livro com pouco impacto tanto no panorama literário inglês como no internacional.

Este livro é uma amálgama tão grande de história contemporânea, crítica social, sátira, humor, suspense, que é difícil não se ficar totalmente agarrado a tal peça literária tão disruptiva. Acredito que existam mais livros assim escritos e construídos, mas até hoje este foi o único que encontrei e li. E por falar em encontrar, é curioso o facto de eu ter encontrado este livro por acaso, tal como um dos blue movies de Tim Purdom é igualmente encontrado por acaso no início do livro.

Com a história de Tim Purdom não se fica só entretido durante uns dias, fica-se antes a pensar em todos os dilemas que um mundo ilegal e feito de subalternos de características únicas providencia.

Tim é uma personagem forte e única, mas não aparece como um herói que reclama todo protagonismo para si. Pelo contrário, à volta de Purdom surgem vários outros personagens magistralmente construídos, cada um com a sua filosofia de vida, com os seus valores e com a sua importância. Há conflito, há entreajuda. E é o facto de haver personagens tão fortes e as suas relações estarem tão bem descritas e estabelecidas que faz deste livro algo fantasioso e rocambolesco mas também real e humano.

Para além disto, quanto ao estilo, Antonhy Frewin é um autor que não perde tempo, não enrola o leitor. Cada frase é um passo importante na história, cada frase atinge-nos de forma certeira e deixa-nos de dedos agarrados à página na ânsia de a virar. E isto é ainda mais de louvar quando, desde o início do livro, já se conhece o fim. É isso que prova a mestria narrativa deste autor, o facto de conseguir cativar o leitor numa história à partida já resolvida.

Porém, no meio de tudo isto, a revelação mais importante para mim foi entender o título desta obra. London Blues surge como um título com duplo ou triplo significado. Em primeiro lugar, o livro retrata a indústria dos blue movies em Londres, logo o termo “azuis” de Londres refere-se aos filmes pornográficos aí realizados nas décadas de 50 e 60. Em segundo lugar, o termo “azuis” de Londres para além de se referir aos filmes, pode também reconduzir-nos aos podres de Londres, a realidade paralela e underground na qual se desenrola a história. E em terceiro lugar, o livro chama-se London Blues pois, apesar de certas partes com humor, é um livro algo triste e dolente, sendo parecido com uma canção de blues na sua essência.

Por fim, para aqueles a quem importa saber que estilo de livro é este, deixo as palavras do próprio autor sobre tal assunto:

I think the feeling was that it wasn’t in a clearly defined genre – it had too many literary pretensions for a sexy thriller, and for a literary novel it was too thrillerish. They felt it was neither fish nor fowl.

London Blues

História e Enredo - 100%
Estilo da Escrita - 80%

90%

Avaliação Final

"...Antonhy Frewin é um autor que não perde tempo, não enrola o leitor. Cada frase é um passo importante na história, cada frase atinge-nos de forma certeira e deixa-nos de dedos agarrados à página na ânsia de a virar."

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Afonso Castro

Nascido em 1996; estudante de Direito; feroz apreciador de bitoques e grelhadas mistas; leitor incondicional dos livros de Jack Kerouac; e praticante da filosofia "A Vida É Um Livro do Bukowski".

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