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Literatura

Hoje é o dia de começar a escrever

Quantos de nós já iniciámos um novo dia com a convicção de “hoje vou fazer diferente”?

Com a certeza inabalável de “hoje vou fazer exercício físico”, “hoje vou iniciar uma dieta”, “hoje vou colocar a leitura em dia”, “hoje vou deitar-me mais cedo”, “hoje vou começar a escrever o meu livro”. Hoje…

Não é mera coincidência, o início de um novo ano ser também o momento de grandes resoluções. Algumas chegam ao seu destino. A maioria fica presa na rede de malha fina da procrastinação.

O sentimento por trás de um novo dia é o mesmo. Há uma energia própria num recomeço. Um poder aliciante. São mais 24 horas de vida! Muito pode acontecer. E tanto pode mudar.

A força dos novos começos dá-nos esse alento, esse entusiasmo mesmo que fugaz. Muitos de nós conseguem agarrá-lo. Guerreiros da força da vontade, possuidores de poderes sobre-humanos? Talvez não. A mudança acontece para muitos de nós graças a um segredo prestes a ser revelado…

Contudo, não raras vezes, a procrastinação acaba mesmo por falar mais alto. E fica para amanhã o que podíamos fazer hoje.

O grande problema é quando no meio desse nosso adiamento constante postergamos sonhos, frustramos com sentimentos de “não sou capaz”, minando fundo a nossa autoconfiança. E o entusiasmo do “É hoje!”, vai passando para um outro dia, cada vez mais distante.

Com a escrita é assim.

Quantos de nós adiam o seu sonho de escrever? “Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” continua a ser o epíteto de uma vida plena. Muitos têm esse sonho por cumprir. Mas não desejo por ora, falar nesse “marco” de escrever e publicar um livro.

Falo do ato “simples” de escrever transformando sentimentos, paixões, emoções, em palavras para partilhar. Sim. Porque o ato de escrever implica partilhar as nossas palavras com o Outro, mesmo que o outro sejamos nós próprios, no presente, ou num futuro ainda distante; as nossas palavras feitas memórias, um registo de quem fomos, do que pensámos.

Na verdade, o segredo das grandes mudanças reside na força transformadora dos pequenos passos. Se deseja começar a correr todos os dias, comece por sair à rua, à mesma hora, todos os dias para andar. Na primeira semana, dê a volta ao quarteirão. Na semana seguinte, vá um pouco mais longe. Na semana a seguir, aumente a distância mais ainda, e em vez de andar, comece a correr. O hábito vai-se instalando. Correr passará a fazer parte da sua rotina diária da qual já não conseguirá prescindir. O grande segredo da mudança é a consistência de uma ação.

Se procura escrever mais, faça-o mesmo. Comece por reservar um momento do seu dia para a sua Escrita. Vinte e cinco minutos são suficientes para iniciar a transformação. Procure um lugar calmo e confortável para se sentar, longe de telemóveis e quaisquer outras distrações. Avise quem estiver em casa consigo que não deseja ser interrompido. Sente-se e escreva. Escreva. Todos os dias, à mesma hora, no mesmo local.

E não tema a folha em branco! Ela é a sua melhor aliada. É nela que vai confiar as suas palavras, os grandes tesouros escondidos na ilha verde da sua imaginação.

Se tiver dificuldades em arrancar experimente pensar em três palavras. Escreva-as numa folha à mão ou na folha do seu ecrã. Como por magia, o seu cérebro vai começar a revelar-lhe uma história. Qualquer história. A história que deseja contar. Parece-lhe impossível? Experimente agora. Coloque a sua escrita em ação.

Sim. Hoje é o dia de começar a escrever.

E por favor, não fique à espera do encontro mágico com a sua “musa inspiradora.” Não vá ela decidir, mais uma vez, falhar o compromisso!

O que acabei de ler: A menina dos ossos de cristal, de Ana Simão, Editora Guerra & Paz

Prescrição literária: uma história real que mostra que a verdadeira força está sempre dentro de nós e que por mais frágeis que possamos ser, podemos conseguir perseverar. Uma verdadeira lição de vida.

Li simultaneamente, num só fôlego, em menos de 24 horas, Foi sem querer que te quis, de Raul Minh’alma, Manuscrito Editora.

Prescrição literária: este é para mim um livro que não se descreve, que se sente. Um livro que nos ajuda a expandir a nossa consciência, tendo presente que aquilo que pode parecer o mais óbvio, por vezes, também necessita de ser dito.

O que estou a ler: Lisboa em camisa, de Gervásio Lobato, Editora Guerra & Paz

Prescrição literária: um livro que nos transporta à cidade de Lisboa em finais do século XIX, uma paródia da época com vislumbres de atualidade. O tema é Lisboa, tendo como cenário as peripécias da família Antunes, dos seus sogros Martim (sem s), da família Torres, do conselheiro com as filhas casadoiras e do Dr. Formigal, entre outras personagens muito caricatas. Lisboa em Camisa foi, desde a publicação em 1882, o mais estrondoso êxito de Gervásio Lobato, jornalista e romancista, com inúmeras edições,  autor hoje esquecido, recordado apenas por uma rua com o seu nome, em Campo de Ourique.

O que vou ler a seguir: A Amiga Genial, de Elena Ferrante, Relógio D’Água.

Prescrição literária:  esta é história de um encontro entre duas crianças de um bairro popular nos arredores de Nápoles e da sua amizade ao longo das suas vidas. Um livro que nos provoca sentimentos contraditórios e a vontade de conhecer melhor o mistério por trás da própria escritora. A Amiga Genial tem o ritmo de uma grande narrativa popular, densa, por vezes veloz e desconcertante, simultaneamente ligeira e profunda, que nos mostra os conflitos familiares e amorosos numa sucessão de episódios que o leitor deseja que nunca acabe.

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