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Haverá vida para além da morte?

Haverá vida para além da morte?

Era uma altura abençoada para fazer aquela viagem. Há já algum tempo que o Douro era parceiro de jornada. Um espelho sem defeitos! Nele se projetava a paisagem, numa harmonia que arrepiava. Dir-se-ia que a perfeição afinal é real e está ali para nosso deleite.

Todos deveriam ter direito a estas vistas. A emoção toma conta do meu sensível coração e lágrimas felizes roubam-me por breves instantes, a nitidez ao olhar. E eu a precisar tanto dela.

A estrada serpenteia a natureza e não há detalhe menos importante. Tudo parece ter sido colocado de forma cuidada em cada sítio.

Preciso parar. Tenho de sorver todos os pormenores. Quero levar aquela natureza viva, colada à pele, tatuada na memória.

Os socalcos!

Patamares e patamares, tantos que não consigo alcançar. A primavera está prestes a partir, mas antes, fez o seu trabalho e deixou cada cepa enfeitada de parras, muitas parras.  O verde entremeia com os diferentes castanhos e cinzas vindos do xisto. E o rio feito tela, sempre tranquilo. Tranquilo, mas atento, a não deixar escapar nenhum detalhe.

O rio que permanece para além da história, para além das histórias fica-nos para trás, porque continuamos caminho. Um caminho crescente em altura e deslumbramento. Apetece parar a cada curva. Caramba, onde andei todos estes anos que já levo de vida?

Quanto perdi eu?

Cada centímetro de terra guarda memórias de outras vidas. Vidas de trabalho tantas vezes sem pão. A história não se apaga. Somos feitos de todos os pedaços de tempo por onde passámos.

E há por aí quem queira apagar a história!

Não, meus senhores apagadores, da história. Esqueçam esse hipócrita exercício.

Somos quem somos porque vivemos e os caminhos que percorremos correm-nos nas veias, transformam-se em ADN.

Por detrás de paisagens idílicas escondem-se aldeias. Aldeias que um dia foram palco de muitas vidas e que hoje seguram a custo, uns quantos. Por teimosia ou falta de força.

A tarde vai a meio e a luz ilumina um pequeno casario que se faz anunciar abençoado por um santo que lhe deu nome. Santo Amaro.

Pendurada sobre o Douro de frente para a cidade, poucos saberão da sua existência. Uma curva apertada desvenda o cemitério à esquerda e de repente os pneus devolvem um som diferente anunciando que o alcatrão deu lugar ao empedrado.

Não há pessoas, nem sequer animais. A rua principal é ladeada por casas coladas sem preconceito. Algumas bem conservadas, mas fechadas. Muitas mais em ruínas, mantêm ainda alguma dignidade conferida pelas grossas paredes de pedra, que se recusam ruir. Das janelas ainda espreitam algumas cortinas, que, livres de vida voam ao sabor da brisa.

Nas margens da calçada, ervas daninhas gritam esquecimento.

Não se vê um espaço comercial, mas uns metros à frente, avista-se a igreja. Há oliveiras sem poda. Um chafariz, alguns bancos de pedra e uma paragem de autocarro. Um largo simpático que serve de descanso a dois homens que parecem esquecidos de tudo. O silêncio é interrompido pelo sino a dar horas. Afinal o tempo também passa por aqui.

Inspirei profundamente. Queria um café. O que eu pagava agora por um pouco de cafeína!

Mas não havia. Claro que não havia.

Trazendo às costas anos de trabalho, chegou-se a nós uma senhora de carrapito e olhar curioso. Afinal havia gente.

Era a Dª Matilde que ouviu o motor do carro e veio saber quem chegava.

Por ali, há muitos anos que as novidades rareavam e quando as havia, era sobre alguém que se tinha mudado para o lar da cidade ou rumado ao cemitério mais abaixo.

E ouvimos orgulhosos elogios ao querido Santo Amaro e ao Sr. padre que por ali, há muito ganhara estatuto de deus.

Fomos presenteados com uma visita à pequena igreja. Deslumbrei-me com o carinho de cada detalhe. As toalhas que engradeciam os altares foram feitas pelas mãos cansadas de aldeãs dedicadas e crentes. Havia flores frescas e coloridas em cada jarra. E lá estava ele, o adorado Santo Amaro. Pequena figura, esculpida em madeira, de vestes castanhas e douradas. Demorei-me no seu expressivo rosto e Dª Matilde encheu de orgulho o peito já mirrado que, vim a saber, amamentara seis filhos.

Falou-nos das festas a 14 de janeiro. Havia ainda quem viesse de fora honrar a sua aldeia e às suas expensas, organizasse quermesse, banda de música e procissão.

Entrei no olhar daquela mulher, negra nas vestes, enorme no orgulho da sua terra e no sorriso contagiante e terno.

Levou-nos ao ritmo dos seus passos, a um edifico, rodeado de ervas desordenadas, que guardava nas paredes, resquícios da alvura que já lhe pertenceu. Era a escola primária, agora abandonada, que já fora palco de muitas tropelias. Dali saíram juízes, professores e governantes. Atirada aos elementos, ainda lhe restam os vidros das janelas abobadas. Nas traseiras jaz uma carreta funerária, à espera do próximo cliente.

E soubemos das minas de volfrâmio, do vai e vem de gentes, à procura de sustento. E houve mercearias e tabernas. Olhei as pedras da calçada que pisávamos e sim, estavam gastas.

Quantas pessoas aqui vivem em permanecia perguntei. ‘Umas vinte talvez e todos os anos há que nos morra…’

Em agosto a aldeia animava-se, havia filhos da terra que ainda por ali passavam a caminho do Algarve ou Lisboa.

Só a natureza parece manter-se teimosamente agarrada à vida.

Na década de 80 do século XX, ainda não havia saneamento básico. Os caminhos eram feitos de fragas e terra. Rimos dos episódios sobre a vizinhança que se aliviava natureza afora. Durante tão nobre tarefa conversava-se sobre todos e de tudo, de cócoras, claro está!

Por entre ruínas de pedra, lá íamos sabendo da vida que um dia encheu aquele pedaço de terra que parecia colada ao céu.

Foram alegres os dias, cheios de crianças.

‘Agora temos cá o Duarte, de 3 anos’. Matilde lá foi contando que Toninho, o pastor da aldeia, rapaz de pouco siso, fez um filho a uma desavergonhada que rejeitou o menino e agora era ele, a alegria da aldeia.

Os filhos que casaram logo se apressaram a partir. Trabalho de campo é coisa dura que ninguém quer.

Visitas eram poucas, por isso estranhara o barulho de um carro desconhecido. Ainda lá aparecia o padeiro e o peixeiro, que se faziam anunciar com estridentes buzinadelas.

A camioneta para Foz Coa passava duas vezes por semana…

Olhei para uma casa bem conservada de azulejos ainda reluzentes. O espanto deve ter-me denunciado, pois logo Matilde, curvada ao peso da enxada que outrora fora companheira, se apressou a explicar que era a casa da D.ª Rosa, coitada. Reconstruiu a morada da família para gozar a reforma, depois de muito trabalho lá na França, mas uma coisinha má levou-a desta vida…, viúva, sem descendentes… de que lhe serviu o dinheiro?

Amêndoa, azeite e vinha foram os pilares de uma economia, agora sem braços para lhes fazer frente.

Os velhos partiram e deixaram por cá os seus pertences e os herdeiros lá andam nas suas vidas de cidade e nem se lembram do que por cá têm.

Não há quem trate das árvores e no entanto há flores a pintar a paisagem e pássaros que enchem o ar de alegres cantorias.

Percebi que por ali se vivia entre ruínas de casas e gentes. E a televisão como companheira de muitos rostos, sem rosto.

Há muitos anos que já nem os galos anunciavam o dia. E o forno que tanta serventia já teve, estava agora inundado por teias de aranha sem lei. Há um luto generalizado na aldeia.

Santo Amaro é exemplo de um interior esquecido. De um interior que imagino, está pintado de verde esperança.

E pensar que uns quantos quilometro abaixo, havia quem, eu incluída, desejasse paz e largueza. A paz que se deseja e se escorraça! Se acredito na vida destas aldeias, depois desta agonia, desta solidão, deste esquecimento?

Sim, acredito! E vejo-me parte ativa desta reviravolta.

No corrupio irracional que nos move, muitos querem mostrar-se mentores de vida saudável e nesta senda, lá exploram filões, feitos de gentes ávida de mudança. Os produtos com a chancela de Biológicos vendem mais que pãezinhos quentes. E as grandes marcas engordam ao sabor da oportunidade.

Paira uma consciência, talvez tardia. É preciso viver de forma mais saudável, mais sustentável. Mas não se desiste da cidade. Lá onde se diz estarem as grandes oportunidades e o pleno emprego, agoniza-se de solidão.

Estamos cada vez mais rodeados de gente e no entanto cada vez mais sós.

Quantos ‘amigos’ tiram a camisola para nos agasalharem se estivermos com frio?

Vivemos num mundo falso. Há uma plasticidade que nos paira nos dias. Os valores foram trocados por marcas. Tendemos a ser o que possuímos. O que o dinheiro consegue comprar.

Tendemos a ser cópias. Cópias de qualidade duvidosa em nome de uma evolução que acredito, ser um retrocesso.

Fugimos de nós.

Mas não é o fim. Nunca é o fim.

Tenho para mim, que qualquer decisão que tomamos, não é ‘A DECISÃO’, é simplesmente mais uma decisão.

A beleza que o interior do nosso Portugal oferece é tentadora e, no entanto, fugimos dela. Admiramos a paisagem, mas queremos voltar pra cidade o quanto antes.

Sentimos o ar fresco e, no entanto, só nos achamos felizes no meio do dióxido de carbono.

Admiramos o verde e, no entanto, só nos achamos felizes no meio do betão.

Podemos viver com menos do que a sociedade consumista nos impõe. Somos manipulados para alimentar uma máquina que não é nossa. Aceitamos que nos controlem. E pelo caminho uns quantos enchem os alforges. Já não acredito em políticos de coração. Já não acredito em mecenas. Todos dão, se receberem algo em troca. É assim que nos construíram os alicerces de uma vida que não era para ser nossa.

Também eu voltei à grande cidade. Uma cidade agora ainda mais mascarada de falsidade.

Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres não param de empobrecer.

Estamos desconfortáveis e infelizes. Ignoramos o sofrimento do nosso vizinho. Não temos tempo para abraços sinceros.

Voltar às origens!

O poder político não tem interesse no repovoamento das nossas aldeias. Querem-nos carneiros de cidade. Desta forma conseguem controlar-nos sem esforço. Nas cidades somos promovidos à categoria de ‘Presa Fácil’, sem termos consciência. Quem vive na cidade, está mais vulnerável, mais dependente, mais controlável. No campo podemos ganhar muita autonomia alimentar. Um pedaço de terra pode dar-nos o essencial para viver. E talvez nem todos tenham interesse nisto.

Podemos passar sem telemóveis, cinema, roupas de marca…, mas sem comida e água ninguém sobrevive.

Aqui e ali já há quem se aventure a reconstruir casas de aldeia. Transformam-nas em turismos rurais, mas ainda há muito para fazer. Acredito que quase tudo esteja por fazer.

Mas atenção, a mudança só acontece, quando queremos verdadeiramente que ela aconteça. E é preciso estarmos todos sintonizados.

Vamos repovoar o interior.

Vamos dar-lhe a dignidade e a importância que lhe é devida.

Precisamos demitir os políticos que atuam em causa própria.

Precisamos rever e fortificar os benefícios fiscais para famílias e empresas.

Precisamos eliminar o IMI e as taxas de esgotos.

Precisamos reduzir as tarifas de água e energia.

Precisamos ceder terrenos abandonados, a famílias que se comprometam a explorá-los.

Precisamos criar fortes incentivos ao artesanato, assente em produtos locais.

Precisamos atrair Politécnicos e Escolas de Formação Profissional para as pequenas cidades.

Precisamos trazer escolas de vanguarda para as aldeias.

Precisamos de linhas de crédito atrativas para desenvolvimento de projetos familiares e que sejam criadores de emprego e riqueza.

Precisamos de incentivos ao desenvolvimento do alojamento local.

Precisamos requalificar equipamentos socias e trazê-los de volta ao poder local.

Precisamos renovar e aumentar a oferta de transportes.

Precisamos de verdadeiros incentivos ao desenvolvimento e fixação de famílias numerosas.

Precisamos acima de tudo de aprender as potencialidades do teletrabalho.

Acredito que podemos reinventar as nossas vidas.

Acredito que nas ruas agora desertas, das nossas pequenas aldeias, possa de novo correr vida.

Acredito que o chilrear da passarada possa ser acompanhado de gritarias de criança.

Acredito num novo recomeço.

Acredito em portas sem cadeados e alarmes.

Acredito que o verdadeiro biológico possa vir da horta que fazemos nascer com as nossas mãos.

Acredito num mundo ‘Oportunistas Free’

Acredito que podemos voltar a acordar com o cantar do galo.

Acredito que esta mudança possa eliminar muitas das doenças físicas e mentais que atormentam as gentes das grandes cidades.

Porque as estrelas merecem ser contadas.

Porque os beijos merecem ser iluminados pelo luar.

Porque os abraços merecem ser aquecidos pelo sol.

Porque os pulmões merecem ser inundados por ar puro.

Porque temos um mundo esquecido de braços escancarados para nos receber.

Se há paz para respirar, porque esperamos?

Voltemos às origens.

Façamos do velho mundo, o Paraíso que tanto reclamamos.

Sim, acredito na vida para além da morte!

Paula Castanheira

Vivo dos números. Débitos e créditos preencheram-me os dias, mas foi nas palavras que encontrei balanço. Sou de partilhas e detesto o 'nacional carneirismo'. Não aceite que me formatem o pensamento e as emoções. A massificação comportamental deixa-me nervosa e adoro falar sobre temas fraturantes. Que se discutam religiões, touradas e sexo, sem rodeios ou medos. Que se assuma o racismo como coisa real e transversal da sociedade. Adoro destronar a mole de indignados de sofá, que prolifera e destrói o pensamento livre. Sou do mar, do sol, das caminhadas. As viagens são um bálsamo pra vida. Uma existência sem livros, é um deserto estéril, sem cor! Aprender todos os dias é o meu lema. A simultaneidade excita-me a energia. Adoro fazer acontecer! Sorrisos, abraços e elogios são remédios infalíveis para muitos dos males do mundo. Sinto enorme gratidão, por um dia ter percebido que os desafios são para agarrar e que levar os dias a cores, torna tudo bem mais engraçado. Porque a vida é mesmo, um lugar fantástico!

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