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Gratidão gratuita

(ou não há almoços grátis?)

Certo dia, numa conversa telefónica, casual e ligeira, o meu interlocutor brindou-me com o seguinte comentário: já pensaste em fazer rádio? Olha que tens voz e entoação para tal. Agradeci, ainda por cima algo que eu de facto gostaria de fazer, mas mais feliz fiquei pelo seu elogio genuíno.

De facto, há pessoas que são capazes de, não só encontrar talentos nos outros, mas, mais do que isso, comentá-los de forma sincera e, arrisco-me a dizer, promotora do mesmo. Não são apenas descobridores de talentos, mas dinamizadores dos mesmos, ajudando a que sejam desenvolvidos e partilhados. Existe nestas pessoas um altruísmo que vai muito além da revelação externa e que se concretiza não só em não temer o elogio do alheio, mas também na existência de um genuíno interesse na promoção do outro, ainda que nada tenham a ganhar com ele.

Na química, há um conceito que é o catalisador, que é mais ou menos isto: uma substância que, não participando da reacção química directamente, mas que estando presente, permite que a mesma aconteça de forma mais rápida. Vendo tal correlação, resolvi denominar estas pessoas, que muitas vezes nem pertencem ao meio  artístico, por exemplo, mas que ajudam e incentivam na mostra de talentos.

São assim pessoas que considero de uma grandiosidade moral, inversamente proporcional ao interesse pessoal que possam ter nesse desenvolvimento. Assim, aqueles que nada têm a ganhar, mas que não se inibem de lançar os outros para o foco da luz, são, quanto a mim, dotados de uma capacidade de amar extrema. Esta situação pressupõe um equilíbrio extraordinário, não dando espaço ao temor de ser minimizado por um talento em crescimento e de uma alegria fidedigna no desenvolvimento deste.

Tenho tido a sorte de encontrar alguns destes anjos no meu caminho: os que me instigaram a escrever, os que me desafiam para novos temas,  os que me acicatam a entrar em áreas desconhecidas. A todos eles sou muito grata, pelo reconhecimento de algum valor, mas sobretudo pela dádiva de amor  desinteressada que constituem.

É por isso que me é profundamente doloroso ver que há quem o faça de forma carniceira: promovem talentos, não pelo outro, mas por si, para tirarem vantagem dos mesmos e, o que é pior,  fazendo questão de manter o talentoso ser cativo duma perpétua prisão. Assim, mantendo sempre a ideia de que a ele o talentoso deve todo o desenvolvimento, manipula e sabota o crescimento deste, sempre que tal ocorra sem a sua presença. Posso dar um exemplo, para ser mais clara: se eu der a alguém a a oportunidade de aparecer num programa televisivo, porque acredito que a mereça, não posso esperar que a pessoa faça um voto de exclusividade comigo, menosprezando outros desenvolvimentos. Muito pelo contrário, se eu gostar de alguém e lhe reconheço valor, deverei incentivá-lo a progredir em outros voos maiores, ainda que lamentando um fim de uma era comigo. O que não devo, de todo, fazer é culpabilizar o talentoso, conotando-o de ingrato, porque não vai passar o resto da vida a fazer a iniciação que eu lhe disponibilizei. A contrario, deverei exultar com o seu progresso.

Quando as pessoas são boas, ou diria mesmo, ingénuas, poderão não se aperceber desta teia onde as prenderam, boicotando o seu próprio sucesso, por medo de ferir alguém que um dia lhes deu a mão ( facto que lhes é atirado em cara). O que se esquecem, é que se a pessoa o fez de forma altruísta, será com certeza o primeiro a apoia-lo no crescimento, para além de que esta atitude não põe em causa a gratidão sentida, antes a renova.

Claro que isto não é para aqueles que vivem do sucesso alheio,  como bem dizia o Nuno Lopes na sua rábula: tu queres é aparecer. São estes cuja preocupação maior é constar no maior número de fotos, roubando o protagonismo do talentoso ser, vangloriando-se de o ter tornado público, cobrando os royalties da gratidão até ao último cêntimo. Esses não são catalisadores, são apenas espantalhos histriónicos num campo de milho, para pardais verem.

A gratidão de quem recebe um benefício é sempre menor que o prazer daquele de quem o faz.

– Machado de Assis

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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