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Ganhar asas

A verdade é que todos os pais querem, sem margem para duvidas, o melhor para os seus filhos. E sim, para os pais, cada filho é único, especial e merece o mundo. No entanto, andamos a oferecer um mundo bem difícil de criar asas, em vez disso andamos a facilitar as amarras.

No outro dia, ouvia uma palestra que me chamou a atenção e que vem reafirmar em mim a ideia de que cada criança é capaz de tanto, para isso apenas precisa que lhe sejam fornecidas as coordenadas certas. Falava o Dr. Tim Elmore, pastor norte-americano que fundou uma organização sem fins lucrativos, a Growing Leaders, que ajuda no desenvolvimento de líderes emergentes. A filosofia pela qual se rege é que cada criança nasce com qualidades de liderança, qualidades essas que nem sempre se fazem notar, essencialmente devido à super proteção e aos mimos exagerados que os pais oferecem aos filhos.

É difícil saber onde está o limite, confesso. É difícil dar um “não”. É difícil deixar a birra fluir, quando a vontade é não deixar aquelas lágrimas caírem. Por isso, é importante que não se caia na toxidade emocional, mas que seja permitido o crescimento pessoal de cada criança.

Não podemos esquecer que as crianças indefesas de hoje, os filhos “desprotegidos” de hoje, serão os homens de amanha, o que esperamos ver no mundo seremos nós a começar e eles a continuar. Não podemos mudar o mundo, nem hoje, nem daqui a cinquenta anos, mas devemos orientar hoje. Terão de ser adultos responsáveis, capazes de opinar, de argumentar, com predisposição para tomar decisões. Uma criança que é asfixiada, superprotegida e controlada não desenvolverá essas capacidades.

Os filhos que desde cedo têm tarefas a desempenhar em casa têm mais probidade de conseguir trabalhar em equipa, aquando adultos.

O ser persistente vai encaminhar a criança para a solução de problemas, fazendo-a perceber que errar é natural, mas saber assumir o erro e corrigi-lo é a chave para o sucesso.

A busca pelo filho perfeito está a levar as nossas crianças à loucura. A falta de regras, o deixar andar, a extrema preocupação para cada filho ser o melhor está a acabar com a felicidade das crianças.

Esta fome de incutir o ser o melhor, de querer que o mundo os veja brilhar em alguma área acaba por se mostrar sem cabimento. O mundo precisa de os ver brilhar enquanto crianças, crianças com tudo aquilo a que têm direito. Após horas sentados em frente de uma secretaria, a absorver a todo o custo informação, ainda têm um número sem fim de atividades extracurriculares, atividades essas que por vezes nem eles gostam. Não existe espaço para o erro, pois os pais acreditam que conseguem ter filhos com imunidade ao erro esquecem-se que isso é impossível. Deve ser oferecida a hipótese de fracassar, para com isso aprender com os seus tropeços.

É certo que os pais ao fazerem isso têm a certeza que estão a fazer o melhor, acabam por ter como resultado adultos com demasiada dificuldade em perceber-se a si próprio, sem capacidade de olhar para si como um ser autónomo, com características peculiares, capaz de impor os seus próprios limites, de contornar obstáculos, de procurar uma solução para os seus problemas. Alguém com espírito líder, com vontade de procurar um caminho só seu, alguém que tem a noção que, se uma porta se fecha, tem que haver uma forma de uma outra abrir, com a perfeita noção que é preciso trabalhar para isso. Que as oportunidades não se criam sozinhas, que é fundamental arregaçar as mangas e criar oportunidades.

Estes adultos acomodam-se ao pouco que conseguem, raramente se julgam capazes de um pouco mais, não arriscam. São acomodados ao que trás um pouco de conforto e,ao mínimo tropeço, não têm bases para se levantarem. É necessário preparar para o depois, perceber que a vida nem sempre é colorida, existem dias cinzentos e tem que haver oportunidade para aprender a lidar com essa questão, caso contrário, qualquer dor será o fim do mundo.

Crianças ultraprotegidas, adultos que não conseguem respeitar o outro como pessoa que merece respeito, não possuirão bases para agradecer e perceber que cada pessoa que por si passa é especial, que cada trabalho é importante, que não interessam cores, crenças ou estatutos que tornem alguém mais importante que outra pessoa.

As crianças que em crianças perceberam que nem sempre podemos ter o que queremos, acabam por ser adultos mais felizes. As que, por outro lado, não absorveram esta regra básica da vida, vão sentir muito mais dificuldade em lidar com a frustração, em controlar os seus impulsos, em saber contornar o inevitável. Consequentemente, têm mais tendência para impulsos de agressividade, depressões ou a refugiar se em coisas menos positivas.

Uma criança que conseguiu voar será um adulto brilhante, capaz de fazer acontecer, com garra para fazer valer a pena cada dia.

A verdade é que nós, adultos, nem sempre conseguimos o que queremos. Não estamos a ajudar os nossos filhos, se lhes ensinarmos que o mundo vai-lhes dar tudo o que quiserem numa bandeja de prata.

– David Walsh

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