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FRIDA

Frida,

Podia ser ferida (herida).

Se fizermos uma pesquisa bem superficial sobre o significado dos nomes – seja lá isso o que for – Frida é a pacífica ou aquela que traz a paz. Estas elações só podem ser anteriores a 1907, antes de ter nascido Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, que foi guerra a vida toda.

André Breton avançou com uma imagem bem ilustrativa: “A arte de Frida é um laço de fita em volta de uma bomba”. Ela não concordou, claro, mas nasceria a discordância do conteúdo da afirmação ou da própria natureza de Frida? A sua vida foi isso mesmo: uma não aceitação repetida e permanente do que a vida lhe ia dando.

Em criança terá tido um problema de saúde (uns dizem poliomielite, outros espinha bífida) que teve repercussões directas na sua figura, ficando com uma perna mais curta que a outra. Desde cedo soube que os seus padrões não seriam ditados pela normalidade. Entra na idade adulta sendo premiada com um acidente de autocarro, que a deixa fadada a uma sucessão de cirurgias ao longo da vida e com a promessa de não poder ter filhos. Espanto-me a mim própria por conseguir resumir tantas horas de sofrimento numa frase tão insignificante, Frida. Da imobilização subsequente e forçada das operações, numa cama, começou a pintar-se a si própria, vendo o seu reflexo num espelho que havia sido colocado sobre a cama, pelo pai. De facto não pôde ter filhos, ainda que tenha tentado várias vezes, dando-se ao sofrimento de os tentar e depois os perder.  Escolheu a luta, mesmo quando as derrotas eram certas. Não se acomodou nos constrangimentos do seu corpo, muito menos se acomodou nos constrangimentos da vida.

Nas palavras dela, teve um segundo acidente (bem mais grave do que o do autocarro, disse) chamado Diego Rivera, por quem se apaixonou e com quem nunca pôde ter um relacionamento sereno, atravessando infidelidades e desentendimentos sucessivos. Mas ela não declinou o desafio: os desvarios dele haviam de ser superados ruidosamente pelos dela. Choraria a ladainha mexicana, mas não em silêncio e muito menos em resguardo. Haviam de saber que ela podia tanto como ele.

A uma sexualidade comprometida desde logo por uma barra de ferro que a esventrou, atravessando-a pelo eixo de um corpo que já não era inteiro, responde com um apetite sexual insubmisso, procurando relações com homens e mulheres, como se quisesse criar uma segunda camada de desordem sobre a sua já fora da norma condição.

Por ocasião da sua última exposição, perante o aconselhamento médico de que não devia sair da cama, e na iminência de a mostra ser adiada devido ao seu estado de saúde, ela cumpre o preceito, não saindo da cama, requerendo antes que a cama, e ela, Frida, nela, seja levada para a exposição. A versão mexicana da parábola de Maomé e da Montanha. O sofrimento não a assustava, era o seu amigo do peito, não pactuando com os ditadores da dor vivida em silêncio e contenção. Ela sabia desde cedo que a vida também era sofrimento, mas não lhe pedissem que, por isso, tivesse de abdicar do que sobrava. Esta presença profunda do reconhecimento das camadas mais dolorosas grita-se nos seus quadros, onde muita narrativa pode ser subentendida, mas não o sofrimento. Ele é explícito e espalhafatoso, como o foi na sua existência, criando uma dualidade plástica entre a Frida que sofre e a Frida que não se quer render.

Muitos acontecimentos da sua vida estão envoltos nalguma fantasia, muitas vezes alimentada pela própria, ou sucumbem a versões plurais que se vão substituindo em função da perspectiva, não só dos outros. Ela foi o seu próprio Quadro. Pintou-se a si própria até à exaustão – que outro modelo teria quando presa numa cama, sujeita a um reflexo de um espelho que mais nada mostrava? Contudo, não me ocorreria chamar-lhe Frida Narcisa. Pintando-se a ela, pintou a dimensão colectiva que nos une a todos em torno das desgraças, não sem fazer pouco dos desgostos ridículos que, de quando em vez, se nos colam à pele.

Sabemos que pode acontecer (se pode!) o sofrimento deixar-nos mais centrados, levando-nos num movimento que se afunila no nosso umbigo, retirando-nos a capacidade de ver para além do que dói em nós. Ela não deixou no entanto que o seu sofrimento lhe retirasse a consciência de ser no Mundo, envolvendo-se social e politicamente, sempre sem reservas, acolhendo, perdoem a metáfora, a possibilidade de morrer afogada se esse fosse o risco a cumprir para ver o fundo do mar. Uma vida feita encenação de extremos, onde o seu romance com Trotski é mais um exemplo do seu ruidoso marcar de posição (ões) – muito mais do que um caso de amor.

Há uma rudeza no seu traço que parece querer dizer aos nossos olhos que não os vai poupar. A dimensão onírica do surrealismo que paira casa-se em segredo com o realismo que é. Não me parece haver nenhum ismo que a contenha. A vida teve dificuldade – apesar das tentativas – em agrilhoá-la. A arte também.

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