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Contos

Fica quieta.

Quando a irmã nasceu ela ficou feliz. Ela era pequena, do tamanho certo para o seu colo, para o espaço que lhe imaginara. Os dedos dobrados, tão frágeis, seguravam-lhe o polegar, faziam-na sorrir. Parecia perfeita. Mas depois ela cresceu: cresceu com um choro que a abafava, com uma pequenez que ninguém podia deixar de ver, que levava a todos o tempo e a paciência e o que mais lhe restasse. Deixou de ser só ela, deixou de ser, sequer. A tua irmã é pequenina, não faças barulho, a tua irmã é pequenina, agora não posso brincar, a tua irmã é pequenina, não lhe mexas assim, espera, sai daqui, empresta-lhe um bocadinho, não faças isso, não faças nada, fica quieta. Agora ela era a filha crescida, nasceu, sem se aperceber, à mesma hora, assim que a substituíram nos braços da sua mãe e lhe denunciaram a farsa. Ela era, afinal, enorme, tinha braços que chegavam aos sítios, tinha pernas que sabiam correr. Aquela não, aquela era pequenina.

– Mãe, tu gostas mais dela do que de mim? – perguntou ela, envergonhada.

– Claro que não, gosto das duas da mesma maneira.

Ela não acreditou. Antes dela, recebia mais beijos, antes dela, havia sempre colo, antes dela, ela era tudo. Agora não, agora vinha depois, mesmo quando a beijavam, mesmo quando lhe diziam que a amavam, diziam depois, nunca primeiro: e a ti também.

Ela confiou no tempo, acreditou que um dia a irmã deixaria de ser pequenina, mas ela nunca cresceu, mesmo quando os seus braços também já chegavam a sítios e as suas pernas sabiam correr, mesmo assim, ela era pequenina. Ela nunca tinha culpa, nem maldade: era pequenina. Eram dela o colo, as risadas, as primeiras vezes. E porque é que ela não podia ser mais como a irmã: que pré-adolescente, sempre amuada, que ingrata, que falta de graça, podias ser mais bem-disposta. Quando eras pequena não eras assim. O tempo não era, afinal, de confiança, roubava-a, fazia-a maior, fazia-a pior. A mãe nem se apercebia, esquecia-se só dela, de quando ainda era, também ela, pequenina e perfeita e lhe levava as noites colada ao peito, a sugava e a enchia de um amor que era novo, descomedido.  A mãe, que agora se revia nela, nos lábios que entortavam ao falar, no cheiro que lhe saía da pele, no cabelo oleoso, nas indecisões, em tudo o que tentou esconder e aparecia agora, sem embaraço, nem domínio, a ganhar forma, a humilhá-la. A mãe não se apercebia, perdeu-se nela, deixou-a ir. Nunca se amou assim.

-Mãe, tu gostas mais dela do que de mim?

E a mãe, dizia que não, esperava que ela acreditasse: chorava de culpa por lhes encontrar diferenças, por escolher sem hesitar, por a ter estragado. Um dia pediu-lhe que olhasse pela irmã: não saias daqui, que ela é pequenina. Ajoelhada no chão, olhou por ela: sentada na banheira, com o cabelo molhado a cobrir-lhe parte do rosto, os braços agitados a mergulhar na água, a salpicar o chão, a inundá-lo. Ouvia a mãe ao telefone, a voz tão longe, inspirou.

– Vou me’gulhar, queres ver? – disse a irmã

– Sim.

Viu-a esticar-se na banheira, o seu corpo franzino, os ossos, a pele muito branca, transparente. Como era pequena, nem metade dela.

– Põe a cabeça debaixo de água. Consegues?

Viu o seu pescoço fino, os cabelos adormecidos na água, os dedos, que lhe seguravam o polegar, à procura, pequeninos: imaginou como teria sido sem ela.

Não faças nada, fica quieta.

– Mãe, tu gostavas mais dela do que de mim?

Vera Agostinho

licenciada em jornalismo, mas dona de casa há uma década. gosta de escrever, fotografar, editar e ver documentários sobre pessoas desconhecidas.

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