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Expirar

Nessa tarde soube que ela tinha morrido.

Não percebi. Ainda hoje sinto que não percebo totalmente nenhuma morte, e não percebo como é que o mundo não pára, naturalmente, numa espécie de luto colectivo e merecido, cada vez que alguém morre. Como é que é possível conseguir compreender todo o conceito de alguém morrer? Neste caso, como é que podia aceitar que ela tivesse morrido, que ela pudesse morrer, tão nova e cheia de vida? Não percebi, só soube que não a voltaria a ver, que o namorado e os pais tinham ficado sozinhos, que os amigos a tínhamos perdido, e desatei a chorar. Chorei toda a tarde, tanto com lágrimas que se viam como das outras, daquelas que ninguém vê mas que não conseguimos parar, em que tudo o que sentimos é essa tristeza e esse pranto interminável.

Em casa decidi escrever-lhe. Escrevi sobre ela e para ela, embora quando escrevamos para alguém que já não está connosco na realidade seja escrever para nós, para a nossa alma. E quando estava a escrever, tocou-me o telemóvel. Olhei: uma mensagem dela. Uma mensagem dela. Uma mensagem dela? Peguei no telemóvel a tremer. Será um sinal, uma daquelas mensagens que vemos em filmes de espíritos a dizer “Não te preocupes, eu estou bem!”? Voltei a olhar, a soluçar e com a visão turva, o que não me deixava ver bem o nome dela, ler a última mensagem dela. Não, não era nada do género; era um relatório que dizia “mensagem expirada”. Uma mensagem que lhe tinha enviado e ela nunca tinha lido, uma mensagem minha para ela que nunca tinha sido entregue, e que coincidiu receber o aviso justamente no dia em que ela tinha partido. No dia em que a vida dela também, como aquela mensagem, tinha expirado.

Mas ela não expirou. Ela continua e continuará. E secretamente quero continuar a pensar que era ela, que era a alma dela, o espírito dela, a energia dela a enviar um sinal. “Não te preocupes, estou bem”.

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Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

3 Comments

    1. Bien, me alegro mucho! Y lo entiendes todo bien, no? Pues cuando estén los textos en los que incluiré tu foto, te pasaré el enlace, creo que quedarán bonitos.

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