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Crónicas

Evoluir com a linha do tempo

A minha mãe aprendeu a conduzir com a idade que tenho agora. Comentava ela recentemente, que a sua maior dificuldade na aprendizagem da condução foi ter que utilizar e coordenar em movimentos distintos os dois pés, uma vez que nas máquinas de costura, que ela começou a usar em miúda, se usa apenas um pé ou os dois no mesmo movimento (no caso das máquinas domésticas antigas sem motor).

Recentemente decidi-me a aprender a “conduzir” máquinas de costura e, devido aos vícios da condução, tenho dificuldade em utilizar um pé apenas ou ambos no mesmo movimento, e em controlar a velocidade que aplico ao pedal para controlar o resultado final da costura.

Poderia esta situação confirmar, que eu e a minha mãe andamos sempre ao contrário, mas não, é um exemplo casual que demonstra que somos de gerações distintas e que tivemos um crescimento e aprendizagens enquadradas aos nossos tempos, assim como temos visões e posicionamentos no contexto em que vivemos muito diferentes, e que no espaço temporal que nos afasta houve uma alteração substancial das prioridades, do modo de vida, das aprendizagens e sobretudo do modo de estar da mulher.

Outra coisa que nos distingue é o fato de o meu percurso de vida me ter “obrigado” a viver até à data em 16 casas diferentes e de a minha mãe ter vivido, até à data, em  apenas 4.

Mesmo nestes dois aspectos, a minha mãe também se distingue da maioria das mulheres da sua geração e das aldeias onde cresceu e vive: conduz e viveu em mais do que uma casa, ao contrário da maioria da sua geração.

Nos últimos 40 anos, para além das aprendizagens e do impacto flagrante do enquadramento da mulher se terem invertido e alterado na vida ativa e profissional, o acesso e a variedade a bens e serviços a que temos acesso multiplicou-se.

Lembro-me dos dias emocionantes das idas ao aeroporto, para trazer ou deixar familiares, e que incluíam sempre uma ida ao Continente do Norte Shopping. Ou do dia em que numa visita de estudo com a Escola Primária a Braga decorei o caminho para o Feira Nova, para depois lá voltar com os meus pais. Ou do excitante que era, no Natal e na Páscoa, comprarmos roupa nova na Maconde, que na altura achava que era um armazém enorme, e que voltando agora ao mesmo espaço (em Viana passou a estacionamento do Pingo Doce) parece tão pequena.

Podíamos ainda dissertar sobre a especificidade dos contributos das alterações políticas, da Comunidade Europeia, do  avanço tecnológico, da acessibilidade e rapidez à informação (e desinformação),  entre outros matérias que ao longo destes 40 anos têm-nos transformados em bichos tão distintos dos nossos antepassados, sempre tão ocupados e empenhados a falar para um rectângulo mas sem interesse em ouvir quem está ao nosso lado.

Mas mais do que carpir e maldizer, é importante relembrarmos que esta transformação para o facilitismo para além de fechar do baú da cave as roupas antiquadas e a opressão feminina e masculina, fechou também no baú a capacidade da gestão económica das PME que são as nossas vidas. E passamos a viver não com o que tinhamos, mas com o sonho de que podíamos ter tudo o que os outros tinham.

E assim enveredamos pelo sentido da “Dívida”: devemos dinheiro, devemos a educação dos nossos filhos a outros, devemos tempo ao nosso núcleo forte e família e devemo-nos a nós a contínua busca pela felicidade.

Já há uns 25 anos, numas compras no supermercado, em reacção a uma recusa de compra de um brinquedo qualquer por não termos dinheiro suficiente, um primo respondeu-nos prontamente : “Mas eu quero!! Se não tens dinheiro, paga com o cartão!  “

Nestes últimos 50 anos, como é natural e desejável, o ser humano evoluiu e transformou-se em muitas áreas, e noutras tantas tem-se mantido  tacanho ou até retraído.

As mulheres conduzem e até parecem independentes (deixaram de ser subservientes aos maridos, mas passaram os pais a serem subservientes aos filhos), a gestão doméstica (económica) acontece de modo automático, porque raramente sentimos o dinheiro fisicamente. Damos os nossos dados e informações pessoais a cada novo clique, e a nossa liberdade aos que todos os dias nos manipulam, porque não detemos a base do conhecimento necessárias para a gestão do dia-a-dia para tomar decisões, boas ou más, mas conscientes.

E este blá-blá todo começou sobre a costura e a confusão com a condução. As máquinas de costura passaram a ser transportáveis para todo o lado, a serem fabricadas em outros materiais, a terem mais funções, mas o conceito de funcionamento da parte mecânica é o mesmo há mais de 100 anos. A prova é que há equipamentos com mais de 100 anos que ainda funcionam, mesmo em mãos com pouca experiência.

E esta metáfora da costura/condução aplica-se ao que fazemos ao longo da nossa vida, evoluir com o futuro e evoluir com o passado. É tão importante fazê-lo aos 20 como aos 80, importa tentar as vezes necessárias, parar as vezes necessárias e persistir no que vale a pena.

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