Eu ainda sou do tempo em que o incesto era algo comum em muitas famílias, longe dos olhares da vizinhança.
A violência doméstica era factor predominante em todas as classes sociais, mas cabia à mulher retocar a maquiagem e aparentar um casamento feliz.
A pedofilia era vista com vergonha, não por quem a praticava, mas sim por quem tinha conhecimento de tal acto e virava a cara, calando e consentindo a pratica.
Bater num pai ou numa mãe idosa também era situação que existia, embora em menor numero, visto que a educação era dada de maneira diferente dos dias de hoje.
Prostituição era conhecida de todos, filmes pornográficos estavam á distância de um bilhete de cinema.
A traição entre casais era uma realidade oculta. Chegava até a ser normal um homem manter duas vidas: uma com mulher e filhos e a outra com amante e, por vezes, filhos “ilegítimos”.
No caso das mulheres a traição era algo completamente condenável que tinha a obrigação de se manter bem escondida, não fossem elas cair em desgraça. Elas, nunca eles.
Tudo isto existia no tempo em que a internet era apenas uma ideia de um qualquer filme de ficção científica,
A abertura de portas à globalização através de um ecrã e à distancia de um click, chocou o ser humano. É comum hoje em dia ouvirmos dizer que o Homem virou bicho ou que regrediu nos seus valores.
Mas se estivermos atentos, percebemos que o que realmente mudou foi a forma como vemos o mundo e o facto de sermos constantemente observados pelos outros. Servimos de polícia social enquanto estamos a ser policiados.
Pode parecer assustador e desconfortavel, mas talvez seja necessário para nos tornarmos seres humanos de verdade.
Há quem diga que as relações amorosas, seja no casamento ou namoro, estão à mercê das redes sociais. Que o Facebook, por exemplo, é sinónimo de divorcios e separações. Fraca desculpa para pessoas que não têm sentido de valores morais. A Internet no geral e o Facebook particularmente, são apenas ferramentas de uso humano. O computador ou telemóvel não têm vida própia e não respondem por ninguém. Somos nós que os usamos a nosso belo prazer e vontade. Logo, somos responsaveis por tudo o que dizemos e fazemos atrás de um ecran ou de um smartfone.
Em vez de culparmos a tecnologia pelos nossos actos, seria melhor repensar a forma como nos dirigimos aos outros e como permitimos que se dirijam a nós.
Num mundo perfeito, isto era fácil de se fazer. Bastava que cada um de nós agisse sempre como se estivesse a ser observado. Por exemplo: imagine que troca mensagens com alguém que o admira. Alguém que dá a entender que se quer aproximar de si. Imagine que está numa relação e que esse tipo de mensagens pode criar desconforto nessa relação ou até mesmo conflitos. A unica saida é responder a estas mensagens como se o parceiro estivesse ao seu lado. O resultado será simples: a pessoa em questão percebe que não terá sorte na aproximação e você livra-se de gerar mal entendidos.
Sem “rabos de palha”, sem mentiras, sem traições, a vida flui mais facilmente. Mas para isso é necessário, antes de sermos honestos para com os outros, que sejamos honestos connosco próprios. Vivemos uma era em que nos vendem a ilusão que tudo é permitido. Somos crianças mimadas que não sabem destinguir entre um desejo ou capricho e responsabilidade ou obrigação.
As redes sociais apenas demonstram na integra que ainda temos muito a evoluir no que toca a relações humanas. Pode até dizer-se que são o nosso espelho, o reflexo que dirigimos ao mundo. Quando vamos à casa de banho, fechamos a porta por uma questão de privacidade. Talvz seja melhor fechar a porta a certos hábitos e resolvê-los internamente antes de nos expormos aos outros de forma errada.
Um casamento não acaba porque se tem conta no facebook. Ele acaba porque não existe diálogo e sentimento.
Um namoro não corre mal porque existe um Instagram. Ele corre mal porque as pessoas se expõem ao ridiculo.
A familia não comunica dentro de casa, não porque existem muitos aparelhos de televisão, computadores e telemóveis. Mas sim porque nessas familias já não existem regras de convivio nem horários para se estar uns com os outros.
Temos urgentemente de reatar a ligação do nosso cérebro com a nossa consciência, se queremos uma sociedade mais cívica, honesta e feliz.